“Dona Flor”, um Jules et Jim metafísico, regressa às salas de cinema

(Fotos: Divulgação)

Maior sucesso do casal de produtores Lucy e Luiz Carlos Barreto — homenageados em 2024 em Cannes —, a história de amor sobrenatural Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976) regressa agora às salas de cinema no seu país natal, o Brasil.

O filme tornou-se um fenómeno de bilheteira há cerca de cinco décadas, o que valeu ao realizador Bruno Barreto o passaporte para filmar nos Estados Unidos, onde recebeu elogios com Carried Away – Atos de Amor, há 30 anos. A obra que o projectou internacionalmente começou a ser concebida há 50 anos e, depois da estreia na América do Sul, gerou filas intermináveis por onde quer que fosse exibida. Vendeu 10.735.524 bilhetes no Brasil desde a estreia, a 22 de novembro de 1976.

Ardiam com sabor a cebola crua os beijos trocados entre a cozinheira e professora de culinária Florípedes Paiva (Sonia Braga) e o malandro Valdomiro Santos Guimarães, o Vadinho (José Wilker). O universo narrativo que os envolve tem origem no romance homónimo de Jorge Amado (1912-2001), escritor que voltou a ser celebrado no cinema brasileiro com o documentário premiado 3 Obás de Xangô, de Sérgio Machado, sobre a relação entre Amado, o compositor Dorival Caymmi (1914-2008) e o artista plástico e ilustrador Carybé (1911-1997).


Com culto a seu torno como o “Midas” do documentário latino-americano, Eduardo Coutinho (1933-2014) trabalhou no argumento de Dona Flor e Seus Dois Maridos, ao lado de Leopoldo Serran (1942-2008). Sonia Braga tornou-se a grande estrela nacional com o êxito alcançado pela sua personagem. Os dois maiores sucessos recentes da sua carreira foram Aquarius (2016) e Bacurau (2019).

Exibido no Paris Theatre, em Nova Iorque, em 1978, Dona Flor e Seus Dois Maridos, produzido pela LC Barreto, foi lançado em França a 3 de agosto de 1977, estreando de imediato em dez salas de Paris — um feito notável para uma produção sul-americana. Em 1979, a nomeação para o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira assegurou prestígio em Hollywood a Bruno Barreto, que conquistou ainda o Kikito de Melhor Realização pelo seu requintado trabalho atrás das câmaras. Chegou mesmo a iniciar uma carreira internacional, a exemplo de Sonia Braga, que viria a contracenar com Robert Redford, Clint Eastwood e outros mestres do cinema.

O intérprete de Vadinho, numa composição memorável, José Wilker (1946-2014), também marcou presença na indústria de Hollywood, ao participar em Medicine Man (1992), exibido em Portugal como O Curandeiro da Selva, onde foi dobrado por Newton DaMatta.

Vale ainda recordar, no elenco deste marco popular do cinema brasileiro, a atuação inspirada de Mauro Mendonça, no papel do apolíneo farmacêutico Dr. Teodoro. A fotografia, de espírito dionisíaco, tem a assinatura de Murilo Salles. Na banda sonora, O Que Será, de Chico Buarque e interpretada por Simone, tornou a paixão de Flor e Vadinho ainda mais arrebatadora e sinestésica.

Bruno Barreto nos bastidores da adaptação da prosa de Jorge Amado, que levou 10 milhões de espectadores às salas de cinema em 1976 — e que acaba de ser reestreada.

É na madrugada de domingo de Carnaval de 1943, em Salvador, que a trama tem início. Um grupo de foliões está sentado no passeio de um bar a cantar e a beber. De repente, um deles cai morto no chão: é Vadinho.

Após o funeral, Flor, a viúva, recorda o seu casamento. Desde o início do matrimónio, Vadinho revela-se um vigarista, com compulsão pelo jogo. Sai todos os dias com amigos para jogar e beber, e quase sempre regressa a casa embriagado na manhã seguinte. Por vezes, Flor encontra-o caído no passeio. Pede dinheiro emprestado a toda a gente e acumula dívidas. Chega mesmo a agredir Flor quando ela se recusa a dar-lhe algum. Além disso, tem inúmeras amantes.

Apesar de estar longe de ser um marido exemplar, Flor gosta muito dele e sente profundamente a sua falta quando ele morre. Para ela, Vadinho era um amante extraordinário. Com o tempo, Flor vai superando o luto, retoma a rotina, começa a vestir-se melhor e a sair mais de casa. Até que, um dia, recebe uma carta e descobre que o farmacêutico, Dr. Teodoro, está apaixonado por ela. Decide casar-se com ele.

Ao lado do novo marido, Flor tem uma vida tranquila, embora por vezes se sinta inquieta. É então que começa a receber visitas do fantasma de Vadinho. Nasce ali um trisal, o mais célebre do cinema brasileiro, como um Jules et Jim do além.

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