Depois de terem dado nas vistas com Amer, Hélène Cattet e Bruno Forzani estão de volta e mais uma vez mostram que Giallo é a sua forma preferida de inspiração para levar aos cinemas L’ètrange Couleur des larmes de ton corps (The Strange Colour of Yor Body’s Tears), um filme que estreou recentemente no Festival de Locarno e que está a produzir nos espectadores sentimentos dispares, ainda que todos concordem que a indiferença não faz parte do vocabulário destes cineastas. Na verdade, é óbvio que o duo prefere o experimentalismo e o imaginário sensorial que – como Mark Parenson* classifica – «destila o Giallo até à sua essência».
Com a ação a decorrer maioritariamente num apartamento e pegando na história aparentemente simples de um homem que procura a sua mulher desaparecida, L’ètrange Couleur des larmes de ton corps é uma viagem de pesadelo «brutalmente violenta» com cada cena a tentar superar a anterior, e onde as portas são entradas para o inconsciente.
«É um filme muito experimental», admitiu Forzani durante o festival, confessando que «por trás há todo um trabalho sobre o inconsciente» e onde se tenta «dar-lhe uma voz». «O primeiro esboço geralmente é bastante tradicional, então vamos trabalhando e procurando as chaves de acesso ao nosso inconsciente. (…) A nossa abordagem era visual e sonora (…) partimos de uma narrativa clássica e depois vamos desconstruído (…) ». «É a nossa forma de trabalhar», conclui, citando que a descoberta de novos elementos a cada visionamento da fita pode ser comparada ao que «acontece a ver Holy Motors de Leos Carax ou as obras de David Lynch».
Bruno Forzani e Hélène Cattet
Já para Cattet, este filme «é uma continuação do trabalho realizado nas nossas curtas-metragens», onde se prefere «uma abordagem sensorial, para que as palavras não limitem o projeto». Ainda assim, que não se pense que o improviso derivado a percepções sensoriais surge no momento como uma espécie de faz-se luz na mente do cineasta. «Quando editamos permanecemos fieis ao argumento. Tudo é concebido antes das filmagens, no momento da escrita. O nosso guião já contém descrições técnicas muito precisas do que se vê e sente, tal como o ritmo das cenas (…) Nós trabalhamos muito na montagem: cada um de nós, juntamente com o editor, cria a sua própria versão das cenas e, em seguida, escolhemos a melhor».
L’ètrange Couleur des larmes de ton corps é já um dos filmes mais esperados do ano.
* Chefe dos programadores do Festival de Locarno

