«Te voy a matar, bandido!» (I’m gonna kill you, motherfucker!). Assim dizia John Rambo na versão dobrada em espanhol. Esta é uma das muitas lembranças de passar a infância numa terriola onde se apanhava (virando a antena de uma certa maneira) a TVE. Para um Português, há décadas atrás, era impensável os filmes serem dobrados na nossa língua. Os únicos que escapavam a esta regra eram os de animação, mas ainda assim muitas foram as fitas que vi (em criança) na versão original. Depois chegou a TVI, e assistimos aos «Soldados da Fortuna» (rebaptizados de Esquadrão Classe A) numa versão dobrada (ou seria dublada) em brasileiro. Ah… «Dawson’s Creek» também já chegou dobrado.
Felizmente, essa mania «morreu cedo», mas nos canais juvenis é frequente encontrar as dobragens. E sim, houve ainda alguns espertos que impuseram ao distribuidor nacional versões de filmes alemães dobrados em inglês com legendas em português. («Corre Lola Corre» foi assim por cá).
Curiosamente, foi com alguma estranheza que assisti no cinema ao trailer de «Os Pinguins do Sr. Popper», dobrado em português, onde a voz de Jim Carrey dava lugar à de Herman José.
E se as distribuidoras nacionais parecem, timidamente, tentar entrar no reino das dobragens dos filmes «live-action» (até porque os miúdos são mesmo uma grande fonte de receita para o mercado português), em Espanha o Governo quer exactamente o inverso.
Na passada quarta-feira, o parlamento adoptou medidas para que o Governo crie condições para se promover o acesso a conteúdos cinematográficos na língua original, quer no cinema, quer na TV. Uma das ideias é que a versão por defeito exibida na televisão seja a original. O objectivo desta medida é preparar os espanhóis para as línguas, e foram os socialistas espanhóis que avançaram com o projecto.
O Ministro da Cultura local mostrou-se muito agradado com a acção dos seus colegas, estando já o ICAA (o equivalente ao nosso ICA) a preparar um conjunto de medidas para que a ideia avance. Como seria de esperar, há já uma reacção negativa por parte dos actores que fazem as dobragens, que não acreditam que a medida não traga desemprego.
Para Carlos Quadros, do ICAA, «Assim como temos a responsabilidade de não fumar ao pé das crianças, temos também o dever de as levar a ver desenhos animados na sua língua original, de maneira a aprenderem outras línguas desde pequenos».
Será que por cá não estamos a seguir o caminho inverso? Só o tempo o dirá.
Despeço-me com uma das traduções mais bizarras do cinema espanhol. A escolha é «South Park» e a famosa música «Uncle Fucker».
http://www.youtube.com/watch?v=-YeSfL8vuso
Jorge Pereira

