Já nos “acréscimos do segundo tempo“, o Irão apareceu na competição da 83.ª edição do Festival de Veneza. A Bit of Light, de Ali Asgari, é um filme que traz consigo o peso de viver num país tão nebuloso. Na trama, Arash, após passar um período preso e ter o consultório médico fechado, decide cometer suicídio. Antes, precisa de avisar os seus familiares: o irmão, as duas irmãs e a mãe.
Asgari foca-se numa encenação que confere peso a cada olhar e palavra, trabalhando com longos planos estáticos e movimentos de câmara muito suaves. De certa forma, o cineasta insere o espectador na morbidez sentida por Arash; no entanto, por mais interessante que essa escolha seja, acaba por ser um tiro no pé. Para um filme com menos de 90 minutos, A Bit of Light tem um ritmo bastante arrastado. As interações com os familiares são longamente estudadas, o que confere diferentes camadas às relações do protagonista com cada um.
Asgari ancora a sua narrativa no tempo presente; as suas personagens temem um possível ataque de Donald Trump. Mais do que os baques recentes, Arash deseja partir para outro plano porque não suporta a incerteza iraniana — nas esferas política, social e económica. O cineasta encontra um desfecho surpreendentemente belo, que dá voz ao afeto e à importância da família na vida de qualquer ser humano.
Misagh Zareh oferece uma interpretação sofrida, com pouquíssimas alterações na expressão corporal e na modulação vocal. Zareh encarna, de facto, um homem determinado a matar-se.
Russell Crowe entra em cena
Russell Crowe é uma figura polémica. Vencedor do Óscar pela sua interpretação em Gladiador, o ator, para falar sobre a sua outra vertente artística, realizou um documentário centrado na sua carreira musical. Crowe toca em bandas desde a década de 1980. A sua paixão pela música é muito mais genuína do que a que demonstra pelo cinema. Fala das suas composições e dos diferentes projetos com paixão, convidando o espectador a conhecer esse seu outro lado.
What Love Builds é bem realizado, estruturado em capítulos coesos que não se colocam num pedestal de autoimportância. Há uma fluidez entre entrevistas antigas, depoimentos feitos para o documentário, imagens raras e concertos. Além disso, Crowe é um sujeito carismático, capaz de prender a atenção de quem o escuta.
O problema do filme — e aquilo que torna a experiência cansativa — é o facto de Crowe incluir demasiadas interpretações ao vivo na íntegra. Como vários críticos e até o programa South Park já disseram, Crowe não é um grande músico. A partir da terceira música, a impressão é de que o repertório começa a repetir-se — e ele não para, falando de cada canção como um pedaço da sua alma. Ainda assim, What Love Builds é um filme simpático e com algum valor de entretenimento.
Gaza de regresso ao Lido
Finalmente, e depois de em 2025 A Voz de Hind Rajab sair de Veneza com o Leão de Prata, o documentário NAZA, dos realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor, que revela em detalhe os sistemas por detrás do cálculo do assassinato em massa de civis palestinianos por Israel em Gaza, chocou o público e a crítica do Festival de Veneza, colocando-se como um forte concorrente ao Leão de Ouro.
O Festival de Veneza prossegue até ao dia 12 de setembro.

