Veneza 2026: “Jupiter” disseca o processo de tomada de decisão ao mais alto nível

Alexandre Smia estreia-se na realização com um thriller nuclear claustrofóbico que coloca Denis Ménochet na pele do Presidente francês, confrontado com a escalada da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e com a solidão de uma decisão capaz de alterar o destino da Europa.

Um ano depois de Kathryn Bigelow apresentar em Veneza A House of Dynamite, um filme construído em torno de uma crise nuclear e das estruturas políticas e militares obrigadas a decidir, em poucos minutos, como responder à possibilidade de uma catástrofe, a França responde com a mesma dinâmica de thriller, colocando, porém, o conflito entre a Rússia e a Ucrânia no centro de uma narrativa que procura, acima de tudo, olhar para o papel da França na Europa e no mundo. Pelo caminho, o cineasta em estreia estuda a solidão da decisão com que Paul Archambault (Denis Ménochet), o presidente francês, é confrontado.

O motor para a escalada da guerra é um alegado atentado contra o presidente russo, cuja autenticidade é impossível determinar, esperando-se agora uma reação brutal do país, o que leva o presidente francês a ser chamado de emergência para o bunker Jupiter, sob o Palácio do Eliseu, quando a guerra ameaça entrar numa fase irreversível.

Apresentado fora de competição, Jupiter apresenta-se como um thriller claustrofóbico, quase todo concentrado dentro de um espaço de comando, onde ministros, militares e conselheiros se dividem entre a escalada bélica e a negociação. Ao lado de Ménochet no elenco encontramos André Dussollier como o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Dominique Blanc como a ministra dos Negócios Estrangeiros, Reda Kateb como o ministro da Defesa, Ella Rumpf como a conselheira diplomática e Céline Sallette como a primeira-ministra.

Denis Ménochet

“Quando comecei a trabalhar em Jupiter, interessava-me sobretudo a questão da dissuasão nuclear e, por consequência, o papel da França nesse campo, em particular na Europa”, explicou Alexandre Smia em Veneza aos jornalistas, relembrando que, historicamente, os franceses foram sobretudo espectadores das grandes crises nucleares globais, como a crise dos mísseis de Cuba. “A guerra na Ucrânia alterou um pouco a posição da França relativamente àquele que era o seu papel tradicional”, disse Smia, ciente de que o filme ia ganhar contornos polémicos e de que poderia ser visto como propaganda, uma acusação que surgiu mal foi divulgado o trailer. “Sabíamos, quando escolhemos este tema, que isso poderia acontecer. Quando começámos a fazer o filme, este tipo de reação já fazia parte dos riscos previsíveis. Não consigo medir exatamente qual será o efeito que terá sobre o filme. Mas é importante dizer uma coisa: este não é propriamente um filme sobre a Ucrânia e sobre a Rússia. É um filme que procura fazer uma espécie de dissecação do processo de tomada de decisão ao mais alto nível. É essa a realidade que nos interessa.”

Na conferência de imprensa, Ménochet revelou que uma conversa com o antigo presidente francês François Hollande foi importante para construir Archambault, um antigo juiz que chega inesperadamente à Presidência. “Houve uma coisa em particular que François Hollande nos disse: um presidente torna-se verdadeiramente Presidente através do olhar dos outros e através das crises que atravessa. À medida que desenvolvíamos o filme, percebi como esse conselho era precioso.”

Smia foi mais longe ao recusar a separação entre o dirigente político e o indivíduo: “Tenho dificuldade em acreditar que qualquer decisão política possa estar completamente desligada daquilo que somos enquanto pessoas, das nossas emoções e das nossas experiências pessoais. O pessoal e o político estão intimamente ligados.”

Um dos momentos que melhor cimenta essa ideia nem sequer estava originalmente no argumento – aquele em que o presidente Archambault recebe a notícia de uma tragédia familiar. A sugestão partiu de Ménochet durante a preparação da cena e Smia percebeu imediatamente o potencial: “Existe um colapso físico precisamente no momento em que ele chega ao máximo, ao apogeu do seu poder. (…) O homem desaba. E era justamente essa confrontação que procurávamos: o poder absoluto e, ao mesmo tempo, o anúncio de uma morte.”

A tensão entre o indivíduo e a instituição prolonga-se pelo restante elenco. Dominique Blanc recordou que o trabalho foi construído quase como o de uma companhia teatral, enquanto Ella Rumpf destacou a importância da escuta. Já Reda Kateb realçou a verdadeira interdependência existente entre os intérpretes: “Há uma sequência que filmámos já perto do final da rodagem e que devia durar cerca de dez minutos. Estávamos quase como feras dentro de uma arena. Queríamos continuar a filmar aquelas cenas.”

Não por acaso, Jupiter abre sob o signo de uma citação de Jorge Luis Borges. Para Smia, a dissuasão nuclear é, por natureza, um sistema de paradoxos, pois para garantir a paz, é preciso sermos capazes de nos exterminar mutuamente: “Gastamos milhares de milhões em armamento que supostamente nunca deverá ser utilizado. (…) Para impedir o adversário de agir, é necessário convencê-lo de que nós próprios estamos preparados para ir até ao fim.”

O Festival de Veneza prossegue até ao dia 12 de setembro.

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