Werner Herzog dedica Bucking Fastard a David Lynch: “Gostaria que ele fizesse parte do meu público”

De regresso à competição de Veneza, o cineasta falou sobre Rooney e Kate Mara, a origem do projeto e a dedicatória a David Lynch.

Um ano depois de receber em Veneza o Leão de Ouro pela carreira e de apresentar o documentário Ghost Elephants, Werner Herzog regressou ao Lido, agora na competição ao Leão de Ouro, com Bucking Fastard, uma nova incursão na ficção protagonizada pelas irmãs Rooney e Kate Mara, acompanhadas por Orlando Bloom e Domhnall Gleeson.

Aos 83 anos, volta a centrar-se personagens movidas por ideias maiores que elas próprias, encontrando desta vez em duas irmãs que falam em uníssono e parecem existir como uma única entidade o foco da sua atenção. “Há cerca de 45 anos conheci duas irmãs que falavam em uníssono”, contou Herzog aos jornalistas em Veneza, presentes na habitual conferência de imprensa. Mas embora exista uma origem para a ideia, o seu filme é totalmente um ficção, ou, como descreveu, “uma total invenção”.

Admitindo que, durante anos, a ideia pareceu-lhe impossível de concretizar, foi quando conheceu Rooney e Kate Mara que tudo fez sentido, decidindo avançar, “Não havia atrizes que pudessem fazer isto além delas”, sublinhou. Essa cumplicidade intrínseca tornou-se o centro de um filme onde as duas atrizes interpretam Jean e Joan Holbrooke, irmãs cuja ligação ganha uma dimensão quase mística.

Sobre essa conexão, Rooney Mara admitiu que a tarefa parecia inicialmente difícil, mas a experiência partilhada desde a infância simplificou todo o processo. “Existe todo um mundo não dito entre nós”, afirmou a atriz, classificando a experiência das filmagens como especial: “Quando encontrámos o fluxo certo, tornou-se muito divertido. Nunca me ri tanto. Foi uma experiência verdadeiramente única. “ No mesmo lado da barricada, Kate acrescentou que quando as duas  encontraram o ritmo certo para falar em uníssono, parecia que estavamos perante uma canção. “Havia um ritmo implícito entre nós. Tornou-se uma experiência bastante musical e aconteceu de uma forma muito natural. Surpreendentemente, foi mais fácil do que pensávamos”. 

Por isso mesmo, e apesar de ter previsto duas semanas de ensaios, bastaram cinco dias para essa fase da produção. “Elas foram imediatamente tão boas que disse: ‘Paremos aqui. Encontramo-nos na Irlanda para as filmagens‘”, explicou Herzog, cuja busca do inexplicável no seu cinema ajuda a perceber a dedicatória a David Lynch em Bucking Fastard: “Tínhamos uma compreensão muito profunda do trabalho um do outro, apesar de sermos muito diferentes (…) Gostaria que ele tivesse feito parte do primeiro público do meu filme.”

Rejeitando numa das suas respostas qualquer fronteira rígida entre documentário e ficção, Herzog fala apenas em “filmes” e lembra que mesmo nos documentários existe uma faceta de invenção: “Há música, existem decisões de encenação”. Nesse sentido, Herzog destaca que Bucking Fastard integra-se numa continuidade do seu trabalho, sem a necessidade de citar diretamente trabalhos como Fitzcarraldo ou O Enigma de Kaspar Hauser. “Existe uma visão do mundo comum. Conseguimos senti-la.”, concluiu.

O Festival de Veneza termina a 12 de setembro.

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