Louvor a Eduardo Coutinho no Festival do Rio

(Fotos: Divulgação)

Eleito pela crítica o documentário mais importante da História do Brasil, pela sua relevância estratégica na catalogação dos sintomas da ditadura militar de 1964 a 1985 e pela engenharia narrativa de investigação, “Cabra Marcado Para Morrer” (1984) foi exibido no Festival do Rio neste domingo, às 17h (22h em Lisboa) no Estação NET Rio 2. Haverá mais um par de sessões: na quarta, às 18h, na Caixa Cultural, e no domingo, às 16h, no mesmo espaço. A direção é de Eduardo Coutinho (1933-2014).

Na longa-metragem, chamada “Twenty Years Later” no exterior, somos apresentados a factos ambientados em 1962, quando João Pedro Teixeira, líder da Liga Camponesa de Sapé, na Paraíba, é assassinado por ordem de latifundiários. Um filme sobre a sua vida começa a ser rodado por Eduardo Coutinho em 1964, usando os próprios camponeses na reconstituição ficcional da ação política que levou ao crime. As filmagens são interrompidas pelo golpe das Forças Armadas, em 1964. Dezessete anos depois, em 1981, Coutinho retoma o projeto à procura de Elizabeth Teixeira, viúva de João, e dos outros participantes da produção abandonada.

Por conta desse filme, laureado com o Prémio FIPRESCI no Festival de Berlim de 1985, houve uma verdadeira Igreja Coutinho em solo brasileiro, sobretudo na Zona Sul do Rio de Janeiro e em São Paulo, fazendo culto à obra do documentarista que teria feito 90 anos no último dia 11 de maio, não fosse o crime passional que ceifou a sua vida, num ataque do seu filho esquizofrénico, a 2 de fevereiro de 2014. Mas a relevância do seu projeto de análise do povo brasileiro a partir da palavra levou a uma série de filmes usados como objeto de estudo da formação sociológica e antropológica do país. Laureado na Berlinale ainda com o Iterfilm Award e o Prémio da Crítica em 1985, “Cabra Marcado Brasileiro” é o primeiro título da família, configurando-se como o tratado definitivo do cinema brasileiro sobre a luta pela reforma agrária. 

Obviamente, a longa documental que dividiu águas na forma de a América Latina representar a vida íntima cotidiana nas telas, “Edfício Master” (2002), destaca-se nesse pacote de excelência. É uma presença obrigatória não apenas por seu sucesso de público e de crítica mas por servir como porta de entrada ideal para quem não conhece o estratagema de escuta armado pelo diretor a partir do fim dos anos 1990.

Há 21 anos, a fita deu ao realizador o troféu Kikito de melhor documentário no Festival de Gramado. Cinco anos depois, ele voltaria lá para buscar uma honra pelo conjunto da sua obra – o Kikito de Cristal – e exibir “Jogo de Cena” (2007). É dele ainda um marco da Retomada: “Santo Forte”, de 1999. Integram ainda esse menu Coutinho “Peões”, ganhador do troféu Candango de Melhor Filme em 2004, e o belíssimo (e muitas vezes esquecido) “O Fio da Memória”, de 1991.

“Cabra Marcado Para Morrer”é exibido no Festival do Rio 2023

Chamar Coutinho de “o papa do documentário brasileiro” virou lugar-comum na crítica cinematográfica brasileira. Tal clichê requer uma discussão. Cineasta algum recebe “os votos” de sumo pontífice de um filão se não tiver desenvolvido uma gramática bastante pessoal na sua seara narrativa. A força “gramatical” de uma longa-metragem da marca Eduardo Coutinho vem da engenharia do encontro que poliu, filme a filme, desde que voltou a se expressar no cinema, com o amparo da tecnologia digital. Consagrado com “Cabra Marcado Para Morrer” (1964/1984), Coutinho desenvolveu, a partir do fim dos anos 1990, uma arte audiovisual que tem na palavra o combustível para realizar uma decolagem rumo aos céus da invenção. A partir de frases arrancadas na espontaneidade de um processo que substitui a entrevista pela conversação, os seus filmes permitem que o espectador construa uma relação de identificação com pessoas ligadas a universos que por vezes desconhece. Num fluxo contínuo de busca por sentido, sem apelar para signos que possam fechar os ângulos potenciais de informação que uma imagem filmada é capaz de comunicar, ele faz do “deixa falar” o seu processo de apreensão do outro. É no choque entre a lente do realizador e o verbo do outro que nasce sua linguagem. Nem sempre ela atinge toda a força que há em latência na proposta, como aconteceu com “Peões” (2004). Mas, via de regra, o humanismo é a argamassa que erige a sua obra. E “Edifício Master” é a construção onde o cinema humanista de Coutinho parece estar mais sólido. Não que houvesse uma tese prévia, orientando a sua imersão num prédio de Copacabana. Havia era um contingente rico e diversificado de homens e mulheres com muito a dizer em um espaço geográfico – um prédio residencial – em que muitos se esbarram, mas pouquíssimo interagem.

Coutinho conseguiu fazer da privacidade uma caixa preta de humanidades (assim mesmo, no plural que traduz diferenças sociais, religiosas, étnicas e sexuais) a ser aberta na relação pessoal. No supracitado “Santo Forte“, filme que devolveu o diretor ao panteão dos cineastas mais referenciais do país, ele cristalizou um método que valeria projetos posteriores e inspirou numerosos colegas. Mas nesse marco zero da sua cinematografia na Retomada, havia um tema conduzindo a pesquisa: religiosidade. Em “Edifício Máster”, não. Havia uma multiplicidade de abordagens possíveis à disposição do cineasta, que jamais se limitou ao rasteiro “Como é viver em Copacabana?” na sua conversa com os moradores do edifício escolhido. Após um elaborado trabalho de pesquisa, Coutinho entrou, porta a porta, em 27 apartamentos buscando entender o que pudesse de cada uma das vidas ali residentes. Acabou com isso trançando um rosário de desilusões, expetativas, angústias, medos e alegrias que virou celebrizou um dispositivo cinematográfico único e, aparentemente simples: o deixar contar e o fazer ouvir. Essas duas locuções verbais têm inspirado gerações de realizadores no país a partir do legado de Eduardo, que foi lembrado na cerimónia de honra aos mortos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood na celebração dos Oscars de 2014.

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