Parente indiano do “OldBoy” de Park Chan-Wook, o tenso “Kennedy” não existiria se não fosse a novíssima vaga do thriller sul-coreano, no qual encontra não influências, mas, sim, confluência, pontos de encontro. Há um cheiro de “Time to Hunt” (2020), de Sunghyun Yoon, e de “The Gangster, The Cop, The Devil”, de Lee Won-Tae, na maneira febril como o realizador Anurag Kashyap se aproxima dos códigos do neo noir. Desde o início dos anos 2000, a Coreia do Sul tomou de assalto as telas com filmes que se esgueiram pelo submundo sem a moral pudica de Hollywood – indústria responsável por estruturar o género a partir do fim dos anos 1920. Espetáculos ásperos – nos quais reina a superexposição gráfica da bestialidade humana – consagraram a estética coreana como um farol para se reciclar o filão das tramas Polícia x Bandido, que, nos Estados Unidos, passou a ser potencializado numa outra via – a cinemática – com a chegada de cineastas como Chad Stahelski e Ric Roamn Waugh, a partir de “John Wick” (2014). A combinação desses dois veios – o da Coreia e o de um cinema americano B – parece ser o chão de onde Kashyap descola o seu exercício autoral mais pop.

Com “Gangs of Wasseypur” (2012), ele ganhou notoriedade como o porta-voz de uma Índia que mais parece os subúrbios nova-iorquinos de Martins Scorsese. O seu “Goodfellas” hindi era uma celebração da cinefilia de crime, visitada a partir de um olhar muito particular, avesso a exotismos. Esse olhar prossegue húmido e atento em “Kennedy”, ainda que mais estilizado. Não por acaso, o filme encontrou berço internacional na seção Midnight, ao garantir para si uma vitrine no Festival de Cannes, em maio, no setor da Croisette onde as representações da brutalidade são coloridas com vermelho retinto, rebuscadas.

Rebuscamento não falta à fotografia de Sylvester Fonseca, carregada de uma evocação a um noir mais próximo do “Black Rain” (1987), de Ridley Scott, do que dos exemplares clássicos de uma Hollywood de outrora. É um filme com o ethos de incorreção política do cinema de ação hollywoodiano dos anos 1980 e 90, começando pela construção do seu anti-herói, Uday, vivido por Rahul Bhat. A sua atuação é impecável. Mas a fragilidade maior do filme reside no facto de a direção não saber explorar todo o talento do seu protagonista, ao achatar uma personagem cheia de camadas existenciais, reduzindo-o a uma apresentação unidimensional.

Na trama, Uday é um policia que foi dado com morto. A condição defunta que lhe é atribuída é um convite a uma reinvenção pessoal, uma vez que tinha muitos inimigos. Boatos da sua morte levam a que se reinvente como assassino de aluguer, cumprindo os seus contratos com requinte, sob uma nova identidade: Kennedy. Num dado momento, alguém lhe interpela com a hipótese de ele adotar a alcunha de Trump, dado o seu interesse por ícones da América. Mas ele desdenha, num gesto explícito de crítica de Kashyap. Aliás, tudo se explicita no filme. Não há subtileza alguma, o que não seria problema algum desde que ele conseguisse explorar as catacumbas onde Uday deveria ter enterrado seu passado.

O que o cineasta prefere explorar é a histeria de um mundo em coma diante da covid-19. O surto da pandemia expandiu a ambiguidade de carácter que garante ao noir a sua dramaturgia mais essencial: o estudo do que reside sob as aparências, a cartografia das sombras. Esse estudo é bem processado pelo cineasta, dissecando Mumbai a partir dos seus vértices mais traiçoeiros, das suas incertezas políticas e dos seus pântanos éticos. A ação é representada em sequências de fina vertigem. Mas a falta de apuro na conceituação de uma personagem central que prometia tanto – sobretudo depois de ser confiado a um ator tão bom – incomoda.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
kennedy-noir-tenso-mas-unidimensionalA ação é representada em sequências de fina vertigem. Mas a falta de apuro na conceituação de uma personagem central que prometia tanto – sobretudo depois de ser confiado a um ator tão bom – incomoda