Instituído em 1970, o Leão de Ouro pelo conjunto da obra, atribuído pelo Festival de Veneza, teve nesta 80ª edição do certame, em 2023, a primeira em que uma cineasta italiana foi premiada.
A honra coube a Liliana Cavani, atualmente com 90 anos, que na cerimónia de abertura, que decorreu esta noite, não deixou passar essa “estatística”. “Não é totalmente justo”, disse ela. “Há argumentistas e realizadoras que trabalham tão bem quanto os homens”. Para Cavani, que apresentou este ano no festival um novo projeto, “The Order of Time,” as mulheres necessitam mais “possibilidades para serem vistas”. “Acho que o festival deveria considerar isso. Deveriam considerar o facto de que as mulheres podem fazer cinema. Há um desequilíbrio e espero que isto [o prémio] seja o início [da mudança].”
Nascida em Carpi, Modena, e licenciada em Estudos Clássicos na Universidade de Bolonha, além do diploma no Centro Experimental de Cinematografia de Roma, Cavani começou na década de 1960 a realizar documentários sobre assuntos críticos, incluindo “A History of the Third Reich” (1962,) “The Stalin Era, Women of the Resistance” (1963), “La casa in Italia” (1964) e e “Philippe Pétain: trial in Vichy”, pelo qual ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza.
Em 1966 assinou a sua primeira longa-metragem, “Francisco de Assis”, seguindo-se obras como “Galileu Galilei” (1968), “The Year of the Cannibals” (1970), além daquela que lhe deu visibilidade global: “The Night Porter” (1974), protagonizado por Dirk Bogarde e Charlotte Rampling.

Quase cinquenta anos depois de terem trabalhado juntas, Rampling reencontrou Cavani no palco da premiação, referindo que para esse filme, “Cavani tinha em mente as palavras de uma mulher, uma sobrevivente de Auschwitz, que nunca poderia perdoar aos seus captores por fazê-la sobreviver ao seu próprio lado negro”. “Em certo sentido, poderemos dizer que Liliana Cavani e eu fomos definidas pelo trabalho em ‘Night Porter’”, acrescentou Rampling, visivelmente emocionada.
Recorde-se que Cavani conta ainda no currículo com filmes como “Beyond Good and Evil” (1977), sobre a relação entre Friedrich Nietzsche e Lou Andreas Salomé, e “Ripley’s Game” (2002), protagonizado por John Malkovich.
O seu mais recente filme, “The Order of Time”, é uma meditação sobre o tempo baseada num livro do físico teórico italiano Carlo Rovelli.

