Mais prestigiada produtora do cinema nacional, devotada hoje a desenvolver dramaturgias, cuidar de projetos documentais e levar a saga de Madame Lynch (1833-1886) e a sua relação com a Guerra do Paraguai às telas, Lucy Barreto abre um sorriso ao saber que “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976) está na grelha da MUBI (Brasil).
Famoso pela sua curadoria humanizada, que serve de lar a Agnès Varda, Spike Lee e Godard, o streamer dá morada ao fenómeno de bilheteiras que mexeu com os corações do Brasil e de todo o planisfério cinéfilo na segunda metade dos anos 1970. Lucy empenhou-se na porção do filme que foi rodado no Rio, correspondente a cenas de interiores que não necessitavam dos ares da Bahia.
“A minha ideia foi trazer a sequência do casino, toda de interiores, para o Rio, para a sede do Fluminense Futebol Clube, de onde sou sócia desde 1942”, conta Lucy, que cuidou ainda de aprimorar o som da longa. “O nosso maior desafio foi construir o guião, porque o livro é imenso, cheio de tramas paralelas”.
Aos 88 anos, Lucy trabalhou em parceria criativa com o marido, o produtor Luiz Carlos Barreto, na produção, ajudando o filho, Bruno Barreto, a concluir um marco de nosso cinema popular. Às 18h desta terça (22h de Portugal), a MUBI promove uma conversa live sobre o filme, reunindo a cineasta Sabrina Fidalgo, a crítica e roteirista Lorenna Montenegro, a jornalista, apresentadora e crítica Flávia Guerra e a produtora e criadora do canal do Youtube Imprensa Mahon Krishna Mahon. (@mubibrasil)
Ardidos com o sabor de cebola crua, os beijos trocados entre a quituteira Florípedes Paiva e o malandro Valdomiro Santos Guimarães, o Vadinho, na trama de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” existem duas efemérides de peso a celebrar em 2021, além de celebrar a chegada à MUBI. É preciso comemorar os 55 anos da publicação do livro de Jorge Amado (1912-2001), editado em 1966, e festejar os 45 anos da estreia do filme de Bruno Barreto.
Com um resultado nas bilheteiras épico, a produção cinematográfica decalcada da bem temperada prosa de Amado vendeu 10.735.524 bilhetes no Brasil a partir da sua estreia, a 22 de novembro de 1976. Eduardo Coutinho (1933-2014) trabalhou no roteiro do filme, ao lado de Leopoldo Serran (1942-2008). Exibida no Paris Theatre de Nova Iorque, em 1978, a love story metafísica produzida pela LC Barreto foi lançada na França em 03.08.1977, ocupando dez salas exibidoras de Paris. Em 1979, uma nomeaçãoo ao Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa assegurou prestígio hollywoodiano a Bruno Barreto, que conquistou o Kikito de melhor direção pelo seu desempenhoatrás das câmeras. O realizador chegou a engatar uma carreira lá fora, assim como a sua estrela, Sonia Braga. José Wilker (1946-2014), que partiu deste mundo cedo demais, também deu o ar de sua graça para a indústria de Holywood ao aparecer em “O Curandeiro da Selva” (1992). Bruno, que filmou há pouco o filme familiar “Vovó Ninja”, com Glória Pires, ainda tem um projeto de tónica multinacional para lançar na HBO Max este ano: “The American Guest”, com Chico Diaz como o Marechal Rondon e Aidan Quinn como Theodore Roosevelt. Vale a pena lembrar que no elenco desse marco popular do cinema brasileiro, da atuação em estado de graça de Mauro Mendonça, encarnando o apolíneo Dr. Teodoro. Agora, com as projeções no streaming dessa dramédia de amor, é possível avaliar detalhes da excelência da fotografia de Murilo Salles.
“O Jorge (Amado) queria que o Glauber (Rocha) dirigisse o filme e o Luiz Carlos chegou a falar com ele, mas sabiamos que não era a linha dele. Glauber ficou preocupado quando soube que seria o Bruno, por achar que era uma responsabilidade muito grande para um realizador tão jovem. Mas o Bruno conhece muito da arte cinematográfica e se integrou plenamente ao projeto”, lembra Lucy. “Sempre acreditamos que ‘Dona Flor’ seria um sucesso. Só não prevíamos que seria um sucesso tão grande”.
Aclamada mundialmente, a trama de “Dona Flor…” se passa na madruga de domingo de Carnaval em 1943, em Salvador, quando um grupo de foliões está sentado na calçada de um bar cantando e bebendo. Um deles cai morto no chão: é Vadinho. Após o enterro, Flor, a viúva, relembra seu casamento. Desde o início do casamento, Vadinho mostra ser um aspirante a Zé Pilintra, com compulsão pelo jogo. Sai todos os dias com os amigos para jogar e beber, e quase sempre chega em casa bêbado na manhã seguinte. Algumas vezes, Flor o encontra-o caído na calçada. Pede dinheiro emprestado para toda a gente mundo e adquire muitas dívidas. Chega a bater em Flor pelo facto dela se negar a lhe emprestar algum. Além disso, tem muitas amantes. Apesar de não ser um marido exemplar, Flor gosta muito dele e sente muito a sua falta quando ele morre. Para ela, Vadinho era um ótimo amante. Com o tempo, Flor vai deixando o sofrimento de lado e vai retomando a sua rotina, começa a se vestir melhor e a sair mais de casa. Um dia recebe uma carta e acaba por descobrir que o farmacêutico, dr. Teodoro, está apaixonado por ela. Decide se casar com ele. Ela vive bem ao lado do marido, mas algumas vezes sente-se agoniada. Um dia começa a receber visitas do fantasma de Vadinho que se insinua para ela. No início, Flor resiste e até decide recorrer a um pai-de-santo para mandar Vadinho embora, mas ela se arrepende logo em seguida e o chama de volta desesperada. A partir daí Vadinho passa a dividir as atenções da sua viúva com Dr. Teodoro, criando um trisal.
Em 1998, o livro foi adaptado para a TV, com Giulia Gam, Edson Celulari e Marco Nanini. Nas telonas, houve uma recente nova versão, com Juliana Paes, Marcelo Faria e Leandro Hassum. Em 2019, a Televisa lançou no México uma minissérie baseada no livro de Amado, dirigida por Benjamín Cann e protagonizada por Ana Serradilla. Vale a pena lembrar ainda de uma versão da narrativa de Amado made in USA com assinatura de Robert Mulligan (1925–2008) e um elenco que reúne Sally Field, James Caan (genial) e Jeff Bridges, aqui batizada de “Meu Adorável Fantasma” e lá chamada de “Kiss Me Goodbye”.

