A cineasta afegã Sahraa Karimi, cujo filme “Hava, Maryam Ayesha” esteve presente no Festival de Veneza em 2019, escreveu uma carta aberta para o mundo acordar para o impacto da nova ascensão ao poder no Afeganistão por parte dos Talibãs, que depois da saída das tropas norte-americanas do território assumiram a liderança das várias províncias do país, entrando na capital, Cabul, este fim-de-semana. Com esta chegada e domínio de Cabul, o presidente em exercício do Afeganistão, Ashraf Ghani, abandonou o território.
Estrangulados pelos Estados Unidos e aliados há cerca de 20 anos, após os ataques de 11 de setembro, durante décadas os talibãs prepararam-se para um regresso ao poder aparentemente com um discurso menos radical e agora com uma dimensão política. Eles prometeram uma “transição” pacífica do poder e usando as redes sociais afirmam: “A vida, a propriedade e a honra não serão prejudicadas“.
Porém, Karimi diz que, apesar da imagem pública pacificadora, a agenda dos Taibãs é brutalmente feudal, paternalista e envolve um retorno ao passado no que diz respeito aos direitos das mulheres. “[Os Talibãs] vão retirar os direitos das mulheres, que serão empurradas para as sombras das nossas casas e das nossas vozes, a nossa expressão será abafada no silêncio. Quando os Talibãs estavam no poder, nenhuma menina frequentava a escola. Desde então, existem mais de 9 milhões de meninas afegãs em escolas. Nestas poucas semanas, os Talibãs já destruíram muitas dessas escolas e 2 milhões de meninas são forçadas a abandoná-las novamente ”, disse Karimi.
“Tudo o que trabalhei tanto para construir como cineasta no meu país corre o risco de cair. Se os Talibãs assumirem o controle, eles banirão toda a arte. Eu e outros cineastas podemos ser os próximos na sua lista de alvos ”, disse Karimi, que também é chefe da agência estatal Afghan Film, num outro vídeo publicado nas redes sociais.
Quem também se manifestou contra esta nova ascensão dos talibãs foi Khaled Hosseini, autor do livro “The Kite Runner”, adaptado para o cinema: “A decisão americana [de abandonar o território] está tomada. E o pesadelo que os afegãos temiam está a acontecer diante dos nossos olhos. Não podemos abandonar um povo que há quarenta anos procura a paz. As mulheres afegãs não devem definhar novamente atrás de portas trancadas e cortinas encerradas”, disse no Twitter.

