Luiz Carlos Lacerda, o Bigode: 50 anos de combate ao moralismo

(Fotos: Divulgação)

Horas antes de responder as perguntas do C7nema em relação aos 50 anos da sua primeira longa-metragem (“Mãos Vazias”, de 1971), Luiz Carlos Lacerda, realizador e poeta conhecido pelo apelido de Bigode, rascunhou os versos a seguir:

                      PAISAGEM

O meu corpo me dói dores antigas

O pergaminho do braço faz desenhos

Que o menino de dentro até se assusta.

A razão de tal dor e onde encontro

O alento, o bálsamo, o antídoto ?

Se no espelho não reconhecemos

Sua Face desfeita em tantos sulcos

Como os rios a desenhar a terra

Identidade, presépio, berço e sumo

Fruta que mordida diz seu nome

É que o Tempo, talvez, nem mais se lembre

Qual música embalará seu sono.

E desperta com as dores lentamente,

Como um sol apunhalando o dia.

Desde que começou a pandemia, Bigode vem escrevendo uma estrofe atrás da outra e já tem um livro novo de poemas para tirar do prelo: “O Labirinto Febril”, a ser lançado pela editora Azymuth, de Natal, no Rio Grande do Norte. “Os Sais da Lembrança” (Editora Giostri) e “Reis de Paus” (Editora Mariposa Cartonera) vieram antes dele, depurando uma inquietação lírica que, nos ecrãs, materializa-se há cinco décadas numa luta contra o moralismo, numa defesa da cultura queer e da liberdade LGBTQ+. A sua longa inaugural, “Mãos Vazias”, que aniversaria em 2021, utiliza a força da sua protagonista, a atriz Leila Diniz (1945-1972), para celebrar veredas de libertação feminina, a partir de um diálogo com a literatura de Lúcio Cardoso (1912-1968). Assistente de direção de Nelson Pereira dos Santos (1928-2018) – o pilar do Cinema Novo, diretor de jóias como “Vidas Secas” –, Bigode agora prepara um documentário sobre o seu mentor e amigo, com base na relação deste com o Rio de Janeiro. Ele ainda trabalha em uma adaptação da prosa do escritor Rosário Fusco (1910-1977): uma versão de “O Livro de João”.

Apelidado de “o Ettore Scola do Brasil”, por sua abrasividade, expressa em filmes como “For All – O Trampolim da Vitória” (1997) e “Introdução à Música do Sangue” (2015), Bigode fala ao C7nema sobre as suas buscas estéticas.

A sua obra literária, como poeta, tem em Lúcio Cardoso um farol, embora os seus versos sigam uma linha autoral particular. Mas, no cinema, o seu mestre foi Nelson Pereira dos Santos, de quem foi assistente de realização. Você regressa ao universo dele agora com a longa-metragem “Nelson Filma o Rio
Qual é o foco dessa homenagem a ele?

É uma continuação da curta que filmei em 1970, chamada “Nelson Filma”, que abordava a sua filmografia até aquele momento. Não pararei por aqui. Ainda pretendo contar a minha privilegiada parceria como seu assistente em muitos filmes que marcam décadas de convivência e de amizade. O diário de um afeto.

Como foi o desafio, nas filmagens de “Mãos Vazias”, de preservar a sua fidelidade à atmosfera angustiante do atormentado Lucio, mas transcendê-la, criando uma voz própria, que faria de você um diretor-autor?

Lúcio foi o escritor maior da nossa literatura introspectiva. Mas o romance dele obedecia ao sentimento de culpa católica do seu autor, representado por um recuo da protagonista, depois de contestar os seus valores pequeno burgueses. Tudo aquilo contra o qual a Leila Diniz lutou e contra cujos valores me debati. A potência que a Leila tinha marcou novos espaços para a mulher. E isso foi decisivo para reconduzir o personagem de “Mãos Vazias” ao seu papel de enfrentamento libertário.

Quais projetos ligados ao universo de Lúcio Cardoso você deseja realizar?

Tenho vontade de filmar “Inácio” ou “O Enfeitiçado”, novelas que se passam no Rio de Janeiro, nos anos 1940/50, no ambiente do bas-fond daquela época, que tem uma pegada folhetinesca e de tragédia grega, como a maioria das obras do escritor. Tem Jocasta e Édipo na “Crónica da Casa Assassinada”, o livro mais famoso dele. Em Lúcio, lemos a busca obcecada de um homem por um filho desconhecido que transita na noite dos cabarés da Lapa e nos ambientes outsiders do centro do Rio de Janeiro. Atmosfera que associo às gravuras de Oswaldo Goeldi ou à fase das pinturas delirantes de Goya, no final da sua vida. Mas quero fazê-lo como um filme que se adequa às condições de produção do momento, de baixo custo, com elenco e equipe reduzidos e poucas locações. Recentemente, realizei um ensaio para isso, como croquis que antecedem as grandes pinturas ou desenhos, no meu filme “O Que Seria Deste Mundo Sem Paixão?”, com o grande ator Tonico Pereira, sobre a cena final de “O Enfeitiçado”, num plano-sequência conduzido pelo diretor de fotografia Alisson Prodlik, colaborador dos meus filmes há uma década e meia.

Como você avalia a obra de Rosário Fusco, fonte do seu próximo projeto?

Ele é um escritor à margem das lides literárias. A sua obra está esgotada e é objeto de uma espécie de arqueólogos, que são conhecidos como cupins dos sebos (termo do Brasil para os alfarrabistas), mergulhados na busca de jóias desaparecidas. Há uma confraria de seguidores fanáticos pelos seus livros.

Você tem feito muitos documentários, como “Casa9” (2011), e muitas narrativas híbridas entre a ficção e o olhar documental. Qual é a herança do Cinema Novo que seus documentários carregam?

Inconscientemente, os meus filmes têm como referências os primeiros filmes do Nelson Pereira dos Santos, notoriamente influenciados pelo Neorrealismo italiano, e pelas comédias da Atlântida (estúdio brasileiro que fez o filão musical cómico chamado de chanchada). Ali, há o humor irreverente herdado do teatro de revista e dos modernistas da Semana de 22. Nos documentários, identifico – depois de vê-los prontos – essa porção italiana, mas sempre por meio daquilo que marcou presença no cinema brasileiro, na peculiaridade da nossa dramaturgia. Aquilo que a Antropofagia deglutiu e devolveu como nova linguagem.

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