Acabado de chegar do Festival de Antália, onde teve a sua estreia e conquistou quatro prémios, incluindo melhor realização (Necmi Sancak) e melhor atriz (Binnur Kaya), eis um novo filme turco que coloca um dilema no centro de uma estudo profundo de personagens, mas, ao contrário do que é habitual, desta vez não temos um homem perante uma questão moralmente complexa, mas uma mulher. Ayşe (Binnur) tem 47 anos e vive com o irmão Ridvan (38), o qual tem síndrome de down e necessita de cuidados permanentes. O filme arranca com uma desesperada Ayse a ter de recolher o irmão num local onde criou algum tipo de confusão, enquanto ela estava a trabalhar numa estação de serviço.

A abordagem realista dos eventos de Necmi Sancak mostram uma mulher presa entre os seus desejos e um destino fatalista: o de tratar do irmão, totalmente incapaz de fazer sozinho as rotinas mais básicas, como tomar banho ou alimentar-se. Frequentemente, ele também demonstra atos de agressividade, desaparece sem dar pistas, ou entorna água por cima de aparelhos elétricos pela casa. Essa agressividade é complexa, pois repele cuidados externos, a não ser que Ayse ponha em risco o seu emprego e o acompanhe diariamente.

Claro está que na sua forma de filmar, onde se privilegia uma câmara que foca constantemente o rosto de Ayse, a sua linguagem corporal e o seu sofrimento pela condição de dependência total do irmão, Necmi Sancak evidencia deficiências no sistema social turco, mas, acima de tudo, e aí vem o dilema (sempre tão presente no cinema turco=, o filme enfatiza toda a questão quando Aysa, após receber um pedido de casamento, começa a olhar para a sua condição.

Curiosamente, “pulsões” e “pensamentos negros”, tal como vimos em “Salve Maria”, este ano em Locarno, no que concernia à maternidade, são aqui evidenciados, com o realizador e a sua  lente a dedicar todas as atenções numa mulher que sacrifica a sua vida pessoal e felicidade para cuidar do irmão.

Com apenas 76 minutos, Necmi Sancak consegue assim carregar o espectador numa viagem que frequentes vezes entra nos códigos do thriller e do drama psicológico, embora seja na desconstrução das pressões diárias de Ayse que reside o turbilhão existencial do filme. E nisso, Binnur Kaya, através de uma interpretação extremamente física e expressiva, revela ser uma mulher atropelada pela vida e sem hipóteses de fazer uma escolha que seja moralmente aceitável sem se prejudicar.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
ayse-a-arte-e-a-maldicao-do-sacrificio-pessoalNecmi Sancak consegue assim carregar o espectador numa viagem que frequentes vezes entra nos códigos do thriller e do drama psicológico, embora seja na desconstrução das pressões diárias de Ayse que reside o turbilhão existencial do filme