Na tentativa de evitar vínculos com a dramaturgia de ambição comercial, o cinema indie cai com frequência numa armadilha moral de apostar radicalmente no desencanto com o seu prisma para retratar as relações de afeto, o que o leva a afogar personagens num excesso de tormentos, demolindo qualquer possibilidade de redenção. Basta ver o trabalho de Alexander Payne, que arranha o artificialismo (vide o superestimado Sideways) sempre que almeja rejeitar o american way of life.

O sueco Lukas Moodyson (de “Lilya 4-ever”) é outro exemplo dessa linhagem de cineastas que, para driblarem as malhas otimistas padronizadas por Hollywood, implodem a prosperidade afetiva das suas protagonistas a um ponto que beira o risível. É por pouco que “Memoir of a Snail, vencedor do Cristal (a Palma de Ouro do Festival de Annecy) de 2024, não cai nesse alçapão. Os espancamentos sentimentais que o Destino – ou melhor, o realizador australiano Adam Elliot – impõe à jovem Grace Pudel, a sua heroína trágica, fazem inveja aos sofrimentos de Björk em Dancer in the Dark(2000). Existem trechos em que o olhar amargo do cineasta sobre as vidas periféricas incorre em preconceitos, como a gordofobia. Só a exuberância da sua técnica, na lida com a cartilha do stop-motion, que o salva do precipício moralista.

Quem se lembra da curta “Harvie Kumpet” (vencedora do Oscar, em 2004) sabe a potência artística da sua obra, iniciada em 1996. Apoiado numa paleta de cores puxada para o bege, com traços de castanho, Elliot volta a falar de desconexão, como fez em Mary and Max (2009), neste drama animado de leves tons cómicos, gestado ao longo de oito anos e finalizado em 2023. A sua Cinderella sem sapatinho de cristal, Grace, é uma órfã de mãe que, após a morte do pai, é separada do seu amado irmão gémeo, Gilbert. A menina é levada para o lar adotivo de um casal praticante de swing e de nudismo. Já ele cresce no campo, numa casa repressora de fundamentalistas religiosos. Os conflitos do rapaz aparecem aqui e acolá na narrativa, em momentos cruciais, pois o foco do guião deposita-se sobre Grace (interpretada numa modulação vocal um tanto monocórdica por Sarah Snook).

Somos levados a acompanhar a sua adolescência de uma sofreguidão pesada, atenuada apenas pela companhia de caracóis (daí o “snail” no título) e da amizade de uma divertida senhora, Pinky (com a voz de Jackie Weaver), fã de charutos cubanos. Na ausência de Gilbert, com quem se comunica por cartas, Grace encontra um recanto acolhedor nas abiloladas aventuras da sua amiga mais velha.

Não se surpreende, diante da toada de ruínas reinantes, que Elliot apele para lugares comuns (como o Alzheimer) a fim de comprometer essa amizade. Todos os encontros que se estabelecem ao longo da trama vão sucumbindo diante de soluções óbvias. Como os diálogos se equilibram num diapasão irónico, essa disposição do realizador para desgraças soa menos caricata. Ainda assim, o cheiro de caricatura sente-se presente, ao se destacar a chegada de um potencial namorado na vida doída da senhorita Pudel. Esse incómodo não impede que a exuberante estrutura formal dos bonecos usados por Elliot deslumbre o olhar. A manipulação dessas figuras é de uma destreza notável, amparada por uma direção de arte detalhista, que colheu elogios na projeção da película na mostra Perlak do 72º Festival de San Sebastián.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
Jorge Pereira
memoir-of-a-snail-encanta-pelo-stop-motion-mas-resvala-na-caricaturaApoiado numa paleta de cores puxada para o bege, com traços de castanho, Elliot volta a falar de desconexão, como fez em “Mary and Max” (2009), neste drama animado de leves tons cómicos, gestado ao longo de oito anos e finalizado em 2023