Jafar Panahi ganha a Palma de Ouro de 2025

(Fotos: Divulgação)

Num sábado marcado por um apagão e suspeitas de boicote ao festival, com uma falha na rede elétrica, Cannes concedeu a Palma de Ouro a “Un Simple Accident”, de Jafar Panahi, vindo de um Irão que o cerceou por anos a fio. É um palmarés de levante, em sintonia com uma obra de prestígio, que se fez presente na Croisette de 2025 com uma ficção distante das experiências semióticos mais recentes do realizador de “Táxi de Jafar Panahi” (Urso de Ouro de 2015). É uma narrativa que se aproxima do thriller, ao falar de revanche. “É surreal colocar um artista na cadeia da crença de que ele será silenciado, pois ele sai de lá cheio de ideias“, disse o realizador de 64 anos, com a certeza de que os holofotes alcançados em Cannes já começaram a atiçar os censores do Irão.

Pavimentado sobre causos que Panahi colheu em uma das suas detenções, numa condenação imposta pelo regime iraniano em retaliação à sua obra, “Un Simple Accident” narra um plano de vingança de um grupo de pessoas que foram torturadas a partir da ação de um agente de estado. Um operário sequestra um servidor público e submetem-no a um inquérito cercado de agressões. Até uma noiva em núpcias junta-se a esse ato.

Ao escolher um dos 22 concorrentes à Palma para receber o Grand Prix deste ano, Binoche e colegas deixaram-se tocar pela poesia à escandinava de “Sentimental Value” (“Affeksjonsverdi”), de Joachim Trier, da Noruega. Nele, o titã Stellan Skasrgard é um cineasta que tenta convencer a filha atriz (Renate Reinsve) a protagonizar um roteiro que espelha o suicídio da mãe dela. A irmã da tal estrela tenta moderar os conflitos dos dois, que crescem quando o realizador chama uma vedeta americana (Elle Fanning) para protagonizar um argumento relativo às suas crias. Renate tem sequências devastadoras para si, numa estrutura narrativa que sufoca a cada revelação.

Antes de agraciarem Trier, Binoche & Companhia abordaram a transcendência ao premiarem “Sirât”, do galego Oliver Laxe, que parte de uma rave no Marrocos para contar a cruzada de um pai para poder resgatar a filha. Laxe venceu em empate com “Sound of Falling”, de Mascha Schilinski, que faz um painel de sororidades na Alemanha ao longo de várias gerações.

A língua portuguesa marcou presença no palmarés com os dois prémios dados a “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho: Melhor Realização e Melhor Interpretação Masculina, confiada a Wagner Moura. Há 20 anos o cineasta exibiu “Vinil Verde” na Quinzena e, de 2016 em diante, vem exibindo todos os seus filmes na Croisette. Em 2003, Wagner teve o seu rosto projetado na tela do Palais des Festivals com “Carandiru”, de Hector Babenco (1946-2016). Neste momento, ele trabalha em projetos de séries no exterior e não conseguiu receber o seu troféu.

Ambientado em 1977, em plena ditadura militar, “O Agente Secreto” tem Wagner Moura como um cientista, responsável por um laboratório numa universidade pública de Pernambuco, que pesquisa energia. Ao desagradar um representante da indústria com ligações com uma empresa de energia, ele passa a ser perseguido, sob a ameaça de morte. Chega ao ponto se abrigar numa pensão que é definida como um lar para refugiados. Mesmo nessa condição, ele almeja sair do país com o seu filho pequeno, ajudado pelo sogro projecionista (Carlos Franscisco) e por uma célula de resistência ao Poder instaurado, que tem a misteriosa Elsa (Maria Fernanda Cândido) como operaticional.

O júri concedeu o prémio de Interpretação Feminina à jovem Nadia Melliti, uma (merecida) distinção por “La Petite Dernière”. o seu desempenho ajudou para que o filme recebesse ainda um outro troféu, respeitado politicamente pelo seu simbolismo nas lutas LGBTQIAPN+: a Queer Palm. Esse prémio teve um júri à parte, que contou com o cineasta mineiro Marcelo Caetano (de “Baby”). Eles coroaram a estética delicada da diretora franco-tunisiana Hafsia Herzi. A protagonista, a estudante de Filosofia Fátima, vivida por Melliti, precisa encontrar uma estratégia para desviar as opressivas tradições da cultura familiar ao se abrir para o desejo.

Antes de Panahi ganhar o troféu máximo da noite, a produtora e realizadora alemã Maren Ade anunciou o prémio das curtas para “I’m Glad You’re Dead Now”, de Tawfeek Barhom (Palestina). É um drama sobre o retorno de dois irmãos à ilha onde passaram a juventude.

Na tarde da premiação, “O Agente Secreto” conquistou o Prêmio da Crítica da Fipresci e os Dardenne receberam o Prêmio do Júri Ecumênico. Um dia antes, saiu o troféu L’Oeil d’Or, o prêmio dos documentários, que ficou com um filme checheno: “Imago”. O realizador fala dos conflitos de sua família a partir de um lote de terra na fronteira com a Geórgia.

Uma das seleções paralelas mais disputadas de Cannes, a Quinzena de Cineastas, concedeu um prémio de júri popular a um filme do Iraque, que sai da Croisette com status de potencial concorrente ao Oscar: “The President’s Cake”, de Hasan Hadi. Coube a ele a Caméra d’Or de 2025. A longa metragem recria a década de 1990, quando Saddam Hussein (1937-2006) obrigava o povo do país a celebrar o seu aniversário como se fosse uma festa cívica. Caberá a uma jovem fazer um bolo para o ditador, tendo um galo de estimação como seu companheiro numa jornada atrás de ingredientes.

Terminado Cannes, o planisfério cinéfilo volta suas atenções para o próximo festival de peso, Locarno, que acontece de 6 a 16 de agosto na Suíça.

Premiação de Cannes em 2025

PALMA DE OURO: “Um Simple Accident”, de Jafar Panahi

GRANDE PRÉMIO DO JÚRI: “Sentimental Value”, de Joachim Trier (Noruega)

PRÉMIO DO JÚRI: 
“Sirât”, de Oliver Laxe (Espanha/ França), e “Sound of Falling”, de Mascha Schilinski (Alemanha)

PRÉMIO ESPECIAL DO JÚRI: “Resurrection”, de Bi Gan (China)

Realização: Kleber Mendonça Filho, por “O Agente Secreto”

Argumento: Jean-Pierre e Luc Dardenne, por “Jeunes Mères”

ATRIZ: Nadia Melliti, por “La Petite Dernière”

ATOR: Wagner Moura, por “O Agente Secreto”

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: “Resurrection”, de Bi Gan (China)

CAMÉRA D’OR (melhor filme de estreante): “The President’s Cake”, de Hasan Hadi (Iraque), com menção honrosa para “My Father Shadow”

PRIX UN CERTAIN REGARD: “A Misteriosa Mirada do Flamingo”, de Diego Céspedes

PALMA DE CURTA-METRAGEM: “I’m Glad You’re Dead Now”, de Tawfeek Barhom (Palestina) ,com menção especial para “Ali”

PRÊMIO DA CRÍTICA (FIPRESCI): “O Agente Secreto”

DOCUMENTÁRIO: “Imago”, de Déni Oumar Pitsaev

QUEER PALM (Láurea LGBTQIAPN+): “La Petite Dernière”, de Hafsia Herzi

PRÉMIO DO JÚRI ECUMÉNICO: “Jeunes Mères”

PRÉMIO DE JÚRI POPULAR: “The President’s Cake”

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