Embora acompanhado de um nervosismo indisfarçável, um riso de catarse corta o clima de tensão alimentado pela montagem em The President’s Cake numa sequência de permuta: em plena negociação árdua pela venda de um relógio, um galo canta no exacto momento em que o relojoeiro faz um lance pífio pela jóia. A reacção ao gesto do animal é imediata: “É um sinal do Céu”. O Altíssimo, contudo, revela-se bastante ausente no calvário vivido pela menina Lamia (Banin Ahmad Nayef), confrontada com o desafio imposto pelo professor.
Estamos no início dos anos 1990, durante a era Bush (pai), e aproxima-se o dia 28 de Abril, data em que o Iraque era obrigado por lei a celebrar o aniversário de Saddam Hussein (1937–2006). Nesse contexto, Lamia tem de levar para o liceu um bolo com recheio de creme. Se não o fizer — e se não for um bom bolo — cairá em desgraça. O problema é simples e brutal: não há dinheiro para os ingredientes e a avó, rígida nos princípios (Waheed Thabet Khreibat), também não pode ajudar. É aqui que começa uma aventura acachapante.
Hasan Hadi, estreante nas longas-metragens, foi distinguido com o Prémio do Público na Quinzena de Cineastas de 2025 por esta narrativa que cruza o “era uma vez” das fábulas com um neorrealismo de raiz. Recorda O Balão Branco (1995) pela figura da heroína infantil, mas sem se ancorar em eixos antropológicos à maneira do primeiro Jafar Panahi. Há peripécias a mais para um paralelo sólido com o cinema iraniano, e a passagem de Hadi por Nova Iorque — onde se preparou para filmar — deixa um perfume hollywoodiano perceptível na estrutura de acção, mesmo que o cenário nos conduza a geografias pouco visitadas pelo cinema de estúdio.
Os enquadramentos de cores esturricadas do diretor de fotografia Tudor Vladimir Panduri recriam o Iraque dos anos 1990 sob uma óptica naturalista. Em contexto de escassez absoluta, Lamia (Banin, um achado) conta apenas com o amigo Saeed (Sajad Mohamad Qasem) e com o seu galo de estimação numa jornada heroica em busca de ovos e farinha. Polícias violentos, comerciantes trafulhas e até um aviário pedófilo complicam o percurso. À medida que o bolo para Saddam ganha forma, revela-se um país que se protege de bombas e obedece às ordens de um ditador. O Iraque do filme é um microcosmo da opressão — local nas suas circunstâncias, universal nos seus efeitos — num exercício de realização surpreendentemente maduro.
Crítica originalmente escrita em maio de 2025




















