Das primeiras curtas que filmou na sua estreia, em 1988, até à consagradora projecção de Un Simple Accident na disputa pela Palma de Ouro de 2025, o cineasta Jafar Panahi criou um corpus vivo de análise da sociedade iraniana que se orienta pela triagem de invisibilidades. Desde O Balão Branco (1995), a sua narrativa equilibra códigos da etnografia com tropos semióticos em prol de uma Comédia Humana da sua pátria, que já namorou com o existencialismo, em O Círculo (Leão de Ouro de 2000), com a metalinguagem (caso de Isto Não É Um Filme) e com a sociologia, como se viu em Taxi Teerão (Urso de Ouro de 2015). As imagens (leia-se vivências) que são rasuradas ou desprezadas da cartografia oficial daquele país hoje presidido por Masoud Pezeshkian – seja pela censura, seja por exclusão económica – posicionam-se no centro do quadro a partir do qual ele observa as resiliências de uma sociedade patrulhada por demandas patriarcais e por um Grande Irmão que impõe normas (e silêncio) quando deveria praticar a democracia. O método e o discurso condenaram-no a várias sanções na sua terra, até à prisão, de onde tirou os episódios mostrados no guião do seu novo filme.

Tecnicamente amparado por uma engenharia de som sofisticada, que capta a vida de uma cidade onde o governo se coloca como um panóptico a vigiar e punir, Un Simple Accident (Foi Só Um Acidente) é o trabalho mais próximo do conceito clássico do que se chama “ficção” na carreira recente de Panahi. Chega a namoriscar com o Cinema de género, na linha do thriller político, ao apresentar-se como uma trama de vingança. A semelhança com a peça teatral Death and the Maiden, de Ariel Dorfman (filmada por Roman Polanski), é imensa.

No arranque, Panahi segue num carro onde um casal tenta conter uma miúda em euforia total com o boneco de peluche preferido. Uma possível colisão trava o veículo. Ali ocorre o tal “simples acidente” do título, que deflagra a revanche. Aparentemente, abateu-se um cão. O pai entra num armazém para pedir ajuda e alerta um operário, que parece reconhecer o som característico do seu andar manco, fruto de uma prótese. No dia seguinte, o trabalhador bate na cabeça desse homem com uma pá antes de o colocar na parte de trás da sua viatura, que se torna tanto a força motriz como a principal locação deste filme filmado na semi-clandestinidade. Ali desenrola-se tudo o que move a dramaturgia: o sujeito capturado é um agente do governo que torturou pessoas em nome dos seus líderes (sem dúvida durante as manifestações de 2017-2018, nunca nomeadas). É hora de ele assumir os seus crimes… e pagar por eles. Esse pagamento vai envolver uma série de outras pessoas, incluindo um casal de noivos. Todos seguem no mesmo furgão.

A certo ponto, numa montagem nervosa, digna de um bom Costa-Gavras, Panahi cria a dicotomia ao sugerir que os vingadores talvez estejam a perder a empatia e a emular o que as suas algozes fizeram. Começa aí uma reviravolta de guião, centrada no humanismo, que expõe uma centelha de solidariedade capaz de superar o ressentimento. O clima de suspense em alta pressão jamais arrefece, mesmo quando abre espaço para dúvidas e consciência pesada, oferecendo-nos uma investigação profunda sobre a essência da mágoa e as responsabilidades que o seu exercício acarreta.

Texto originalmente escrito em maio 2025

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Rodrigo Fonseca
un-simple-accident-a-estetica-da-revancheNuma montagem nervosa, digna de um bom Costa-Gavras, Panahi cria a dicotomia ao sugerir que os vingadores talvez estejam a perder a empatia e a emular o que seus algozes fizeram. Começa aí uma reviravolta de guião, com foco no humanismo, a expor uma centelha de solidariedade capaz de superar o ressentimento.