Há filmes em que a ausência de consistência — e, por vezes, de coerência — faz parte do seu charme. Basta olharmos para O Agente Secreto (2024), de Kleber Mendonça Filho, para perceber que o amor (ou obsessão) cinéfilo pode, por momentos, aprisionar um realizador, filmando com o coração na boca e a cabeça no ar. Há outros que, cosidos sobre as chamas do rigor, também revelam instabilidades formais e estilísticas, tornando mais difícil desculpá-las. Contudo, quando numa primeira ou segunda longa-metragem alguém como Mascha Schilinski demonstra tamanha audácia, ambição e confiança para construir um painel secular de histórias femininas trágicas e complexas, entrelaçadas e fragmentadas, como faz em Sound of Falling (Olhar o Sol), qualquer tropeço numa empreitada desta envergadura — e profundidade — deve ser relativizado, ainda que não esquecido.
Realizadora de Dark Blue Girl (2017), Schilinski apresenta agora um impressionante fresco de memória coletiva, recorrendo a quatro linhas temporais que se entrelaçam para observar a experiência feminina ao longo de várias eras. Fá-lo através de uma montagem e de um guião que procuram estabelecer conexões constantes, ainda que, por vezes, se percam no próprio emaranhado estrutural. Na primeira história — chave para quatro puzzles dentro de um puzzle maior — seguimos uma família de agricultores à beira da eclosão da Primeira Guerra Mundial. A morte paira no ar e manifesta-se nas fotografias familiares, onde, de forma mórbida, se posa com os mortos. Uma dessas imagens retrata uma menina loura muito semelhante a Alma (Hanna Heckt), que desenvolve uma estranha obsessão pela fotografia da irmã.
Não é apenas dor que habita este clã. Há também momentos de riso — como quando as crianças pregam os sapatos da empregada idosa Trudi (Luzia Oppermann), esterilizada à força pelos patrões “para ser protegida dos homens” — mas esses instantes são rasgados por silêncios devastadores que traduzem o espírito de uma era. Quando a esses silêncios se junta um zumbido sinistro que percorre todo o filme, como se anunciasse a tragédia iminente, instala-se um frio persistente que nos acompanha ao longo das quase duas horas e meia de duração.
Três outras histórias centradas no feminino surgem posteriormente, décadas depois. Numa delas, situada nos anos 1940, sob a sombra da Segunda Guerra Mundial, Erika (Lea Drinda) negligencia os seus deveres, fascinada por um tio amputado, irmão mais velho de Alma. Noutra, passada nos anos 1980, a sobrinha de Erika, Angelika (Lena Urzendowsky), encontra-se no centro das atenções indesejadas do tio Uwe (Konstantin Lindhorst) e do primo Rainer (Florian Geißelmann), em pleno despertar sexual. Uma quarta narrativa, contemporânea, apresenta o declínio final do clã: a antiga quinta transforma-se em casa de férias para um casal de classe média e as suas filhas, Lenka (Laeni Geiseler) e Nelly (Zoë Baier). Estas personagens desconhecem o passado da casa, mas sentem-lhe o peso — os fantasmas de uma memória que não conseguem nomear.
Recorrendo a transições visuais e sonoras fluidas, em vez de capítulos lineares rígidos, Schilinski, o diretor de fotografia Fabian Gamper e a montadora Evelyn Rack constroem uma circulação temporal que nem sempre conduz suavemente o espectador. Ainda assim, ao jogar com memórias nítidas e outras esbatidas, convocando a simultaneidade do tempo numa espécie de memória coletiva partilhada, a realizadora cria uma das obras de maior impacto visual e emocional do certame.
É a partir de traumas individuais que se transformam em traumas coletivos que se consolidam posições de género. Schilinski revela um conjunto de cicatrizes aparentemente encerradas, mas prontas a reabrir — um exercício de “memória genética” e da dificuldade em quebrar ciclos. Pelo menos ali, naquele lugar e naquele tempo.




















