Interdita pelo Islão, a homossexualidade é, ainda assim, menos condenável no caso de uma mulher do que no de um homem. É isso que Fatima, a personagem principal de La petite dernière (2025), o novo filme de Hafsia Herzi, descobre quando questiona o imã de uma mesquita parisiense sobre uma suposta amiga que é lésbica.

Terceira longa-metragem da realizadora de Tu mérites un amour (2019) e Bonne mère (2021), La petite dernière acompanha uma jovem muçulmana devota e filha dedicada (Nadia Melliti) numa busca identitária e sexual ativa. Não se trata propriamente de uma descoberta da orientação sexual, mas de um avançar para materializar o desejo — ainda que, sempre, se olhe para o retrovisor da vida, para que ninguém que a conhece descubra a verdade.

Carregado com o peso da história se desenrolar em Marselha e no seio da comunidade muçulmana, La petite dernière é uma jornada de descoberta que se revela ligeira e sem qualquer peso dramático de repressão por parte da extensa família de Fatima. Apesar de ter a tentação de contar à mãe o que sente, nunca o faz, como se dissesse ao espectador que o único passo que consegue dar, neste momento, é o de se afirmar perante si mesma. Essa decisão, que foge aos clichés e à tendência para apresentações melodramáticas e impactantes movidas pelo haraam, surpreende, mas acaba por limitar o filme de Hafsia Herzi a um conflito pessoal, ficando suspensa qualquer verdadeira resolução e o assumir externamente aquilo que se é.

Por entre encontros organizados através de plataformas quotidianas (os Tinders da vida) com diversas mulheres — que geram mais conversas e reflexões do que atos carnais de demonstração do desejo —, Fatima acaba por se apaixonar por Ji-Na (Ji-Min Park, estrela de Return to Seoul), com quem assume uma relação que será cortada pela inabilidade da última em ultrapassar um estado de depressão. A alma do filme está na interpretação de Nadia Melliti, que gere silêncios, conversas e relações sempre com enorme cautela e pudor, como se tivesse, sobre o pescoço, uma guilhotina de permanente culpa religiosa.

No final, eis um objeto cinematográfico com sentido de urgência. Herzi filma de punho cerrado, entre a ousadia e o recato, originando uma história intimista que leva a produção mais para o estudo de personagem do que para um drama de ativismo social.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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