Existe um antigo jargão da imprensa sul-americana, com citação (em letra maiúscula) ao título de uma famosa revista brasileira, que dizia: “Aconteceu, virou Manchete”. Essa expressão vai por terra na dinâmica das fake news, na qual os factos não precisam existir para serem notícia, pois podem ser fabricados na fricção das redes sociais, hoje mais barulhentas do que os jornais ou os noticiários da TV. Houve um episódio ocorrido em tempos pretéritos da televisão argentina, ligados ao repórter José de Zer (1941-1997), que pareceu antecipar a atual conjuntura de especulação e de fabulação dos media contemporâneos. Nos tempos nos quais ele caçava assuntos para noticiar no programa “Nuevediario”, a hipótese da existência de óvnis na região chamada Cerro Uritorco, na província de Córdoba, fez com que ele se engajasse na cobertura da suposta aparição de objetos voadores não identificados sobre a Terra. Nem sempre Zer e o seu cameraman, Carlos “Chango” Torres, tiveram a atenção plena apenas ao que era comprovado, cruzando a fronteira da invenção. É sobre essa fronteira que fala o divertido “El Hombre Que Amaba Los Platos Voladores”, em concurso pela Concha de Ouro de San Sebastián.
Numa atuação em estado de graça, Leonardo Sbaraglia é uma razão forte o suficiente para que a película de Diego Lerman (diferente do seu habitual registo sociológico seco) seja aplaudida. O seu desempenho no papel de José de Zer é impagável e abre uma discussão sobre ética profissional nos tempos de mandar para a ssucata os media da velha guarda, numa sanha de substituição de repórteres por influencers.
Mais lembrado por dramas ásperos como “El Suplente” (2022), Lerman utiliza o carisma do seu ator principal para atomizar uma série de arquétipos de anti-herói. De Zer acredita estar a fazer um trabalho essencial para a televisão da Argentina a cada vez que fala: “¡Seguime, Chango seguime!”. Ele pensa ser um justiceiro mediático. E nota-se logo que faz isso para seu próprio bem (lucro) e para repaginar a carreira na emissora na qual é estrela. Há, apesar de tudo, uma porção da sua alma que se encontra radicalmente fisgada pelo facto de os extraterrestres estarem ali, no seu país. O seu faro aponta para as evidências concretas de OVNIs. Essa margem entre o que ele almeja e o que suspeita, entre as certezas e as suspeitas, é o que garante complexidade à figura erigida por Sbaraglia.
A elegante fotografia de Wojciech Staron amplia a potência plástica do argumento de tónica crítica escrita por Lerman e Adrián Biniez.
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