Filho do encenador Gilles Bouillon e da atriz Clémentine Amouroux, Bastien Bouillon cresceu dentro do meio artístico e conseguiu o seu primeiro papel de destaque em 2011, no telefilme Simple, de Ivan Calbérac. Foi aí que conheceu a cineasta Valérie Donzelli, com quem viria posteriormente a colaborar em vários filmes, incluindo La guerre est déclarée (2011), Main dans la main (2012) e Marguerite et Julien (2015).
Apesar de, em 2014, ter contracenado ao lado de Ana Girardot em Le Beau Monde, de Julie Lopes-Curval, papel que lhe valeu uma nomeação ao Lumière de Revelação Masculina, só mais tarde, em 2019, com filmes como Le Mystère Henri Pick, de Rémi Bezançon, e Seules les bêtes, de Dominik Moll, demonstraria ser efetivamente um nome a seguir no cinema francês.
Seria novamente com Dominik Moll que daria o grande salto, desta vez em La Nuit du 12 (A Noite do Dia 12, 2022), onde interpreta um investigador obcecado por um feminicídio sem solução. Esse papel valeu-lhe o César de Melhor Revelação Masculina do cinema francês, abrindo-lhe as portas para participações em projetos de maior envergadura, como Le Comte de Monte-Cristo (O Conde de Monte-Cristo, 2024).
Depois de uma nova colaboração com Donzelli em À pied d’œuvre (2025), apresentado no Festival de Veneza, Bastien Bouillon surge agora como peça-chave em Histoires de la nuit (The Birthday Party), o novo filme de Léa Mysius, um thriller adaptado do romance de Laurent Mauvignier. No filme interpreta Thomas, um homem que vive isolado numa zona rural com a mulher e a filha, até que a preparação de uma festa de aniversário começa a ser perturbada pela chegada de três estranhos violentos. Numa noite marcada pela tensão e pela paranoia, vários segredos enterrados vêm ao de cima. No elenco encontramos ainda, entre outros, Hafsia Herzi, Benoît Magimel e Monica Bellucci.
Foi a propósito deste filme que estivemos à conversa com o ator em Cannes, abordando o percurso que o levou de figura discreta do cinema de autor francês a um dos rostos centrais da nova geração francesa. Entre reflexões sobre vulnerabilidade, fisicalidade e o trabalho com realizadores como Valérie Donzelli, Dominik Moll e Léa Mysius, Bouillon falou-nos de um cinema feito de tensão interior, silêncio e personagens emocionalmente expostas. Revelou ainda que o seu próximo projeto será um filme realizado por Michel Gondry.

O que é que mais o atraiu ao papel de Thomas neste Histoires de la nuit?
Tinha visto os dois filmes da realizadora – Ava (2017) e Les Cinq Diables (2022) – no cinema. E, mesmo para nós, atores, apesar de ser fácil ver filmes, também não é algo que façamos assim tantas vezes. Tive a sorte de ver esses dois filmes em sala e gosto muito do trabalho dela.
Acho que foi sobretudo isso que me levou a querer trabalhar com ela, além da colaboração com os outros atores e atrizes. Evidentemente o argumento também me atriu, mas não foi especificamente o meu papel que me atraiu. O gatilho não foi propriamente a minha personagem.
Como foi trabalhar com a Léa? Ela deu-lhe referências específicas para a personagem?
Não propriamente referências, mas ela sabe muito bem aquilo que quer tirar de nós.
Está constantemente presente para nos recordar aquilo que está no centro da personagem e para garantir que nos mantemos ligados a isso.
A Léa Mysius tem um cinema muito físico, muito centrado nos corpos e na presença dos atores. Isso também influenciou a construção da personagem?
Sim. Acho que todos temos fisicalidades muito diferentes neste filme. Portanto, para além da cabeça, existe um trabalho sobre o corpo enquanto conjunto.
Ela sabe muito bem filmar corpos e também dirigir isso, mesmo que às vezes use apenas poucas palavras.
E o que lhe interessou no argumento? Este é um filme muito negro, quase sem esperança…
Falávamos há pouco de referências… Gosto muito de filmes como Straw Dogs (1971), de Sam Peckinpah, ou A History of Violence (2005), de David Cronenberg.
Quando leio um argumento que tem qualquer coisa próxima desse tipo de cinema, mesmo não sendo igual, isso interessa-me muito.
O cinema é múltiplo. Temos sorte de poder fazer coisas muito diferentes. Não tenho vontade de me fechar apenas na comédia ou no drama. E, neste caso, havia também a possibilidade de trabalhar com uma grande realizadora.
Porque acha que lhe oferecem frequentemente personagens vulneráveis, mais silenciosas, introspectivas?
Talvez porque eu próprio transmito uma imagem frágil.
Mas a vulnerabilidade também pode ser uma forma de força.
Claro. É uma questão profunda. O ser humano é ambivalente. Se uma personagem for apenas vulnerável ou apenas forte, não acho isso muito interessante de interpretar.
Neste filme, por exemplo, a vulnerabilidade inicial torna muito mais forte a mudança posterior da personagem. E isso é pura mise-en-scène.
Foi diferente trabalhar com Léa em comparação com o Dominik Moll?
Sim, claro. São pessoas diferentes. Neste caso, L’Histoire de la nuit era um filme num registo huis clos. Acho que até para a Léa foi uma espécie de primeira vez nesse território. Para mim também era um dos primeiros filmes desse género. Estávamos todos a descobrir aquilo juntos.
Com o Dominik Moll já tinha trabalhado antes. Conheço-o há muito tempo. A Léa conheci-a apenas para este filme.
Depois cada realizador ou realizadora tem naturalmente a sua forma particular de dirigir atores e construir encenação.
Tem a sensação de se aproximar mais destes realizadores enquanto pessoas?
É estranho dizer isto, mas sinto-me próximo deles enquanto seres humanos.
Parece também alguém bastante tímido. O que significa representar para si?
Representar é o paroxismo da timidez. Porque me permite desaparecer. É um momento em que deixo de existir. E isso faz-me bem.
Tem algum método específico enquanto ator?
Às vezes sim. Por exemplo, em La Nuit du 12 (2022), dei a mim próprio a regra de fechar a boca sempre que acabava uma frase.
Neste filme não tinha grandes regras assim. A única coisa era realmente ouvir e olhar para os meus parceiros de cena.
Mas acho que a Léa fez um casting absolutamente perfeito. Cada pessoa estava exatamente no lugar correto. Bastava reagir ao que os outros entregavam.


Quando percebeu que queria ser ator?
A minha mãe fez dois filmes com Éric Rohmer.
No segundo, L’Arbre, le maire et la médiathèque (1993), eu fazia de filho dela. Filmámos no nosso próprio apartamento.
O Rohmer tinha uma forma muito familiar de filmar. Lembro-me de uma cena no meu quarto, em cima da cama, com os meus brinquedos. A minha mãe estava ao telefone e, a certa altura, pegou mecanicamente num brinquedo meu. Eu arranquei-lho da mão. Fiquei horrorizado. Pensei que tinha estragado tudo.
No fim fui pedir desculpa ao Rohmer e ele respondeu-me: “Não, isso foi muito bom.” E foi essa a cena final que ficou no filme. Acho que foi aí que percebi que, às vezes, também é preciso deixar-nos ultrapassar pelo momento.
E depois?
Só quis ser ator muito mais tarde. Como os meus pais trabalhavam nesta profissão, inicialmente tentei manter-me afastado dela.
O meu pai encenava teatro e a minha mãe era atriz de teatro e cinema. Depois do bacharelato viajei durante cerca de dois anos. Não seguidos, porque precisava de trabalhar entre viagens. Na segunda grande viagem passei pela Turquia, Geórgia, Azerbaijão, Índia, Tailândia e México. Foi no México que percebi que tinha de voltar e entrar numa escola de teatro.
Depois comecei a participar em concursos. Passei por conservatórios, mas nunca fui muito assíduo. Mais tarde entrei no Conservatório Nacional, embora também não tenha ficado lá muito tempo.
Os seus pais deram-lhe conselhos?
A minha mãe ficou muito desencantada com a profissão muito cedo. Sobretudo sendo mulher naquela época. Nos anos 1990 era ainda mais difícil. Ela nunca me deu conselhos. O meu pai deu-me alguns bons e outros maus.
Sente que os seus pais estão orgulhosos da sua carreira?
O meu pai consegue dizer a palavra “orgulhoso”. A minha mãe nunca o diz, mas sei que está feliz se eu estiver realizado.
Tem novos projetos?
Sim. Vou começar a filmar um filme do Michel Gondry brevemente. Vou reencontrar a Valérie Donzelli, trabalhar com o Tahar Rahim e com a Vimala Pons, com quem nunca trabalhei antes. Estou muito feliz.

