Valérie Donzelli: “O trabalho é regulado por algoritmos. Já não há espaço para solidariedade”

(Fotos: Divulgação)

Estreante na corrida ao Leão de Ouro do Festival de Veneza, Valérie Donzelli não é de todo uma novata nas andanças do circuito internacional dos festivais. Habituada a exibir em Cannes os seus filmes, por lá passaram a curta Il fait beau dans la plus belle ville du monde (2008), e as longas La Guerre est déclarée (2011) e Marguerite & Julien (2015).

Ainda com Notre Dame (2019) e L’Amour et les Forêts (2023) na sua filmografia, Valérie estreou agora no Lido À Pied d’Oeuvre, uma das três produções francesas na competição principal.

Adaptação do romance autobiográfico de Franck Courtès, À Pied d’Oeuvre  conta a história de um fotógrafo de sucesso que abandona uma vida confortável para se dedicar à escrita. Essa opção faz o protagonista – interpretado por Bastien Bouillon —  entrar no campo da libertação criativa, mas igualmente na precariedade laboral.

O que me atraiu não foi só a história, mas sobretudo a escrita. No caso do Frank Courtès, fiquei impressionada com a forma como ele conseguia narrar algo tão pessoal com uma clareza e um talento extraordinários”, disse Valerie Donzelli aos jornalistas em Veneza, a propósito da adaptação da obra literária. “O que mais me abalou foi a liberdade do protagonista: um homem branco, bem-sucedido, que poderia corresponder a todas as expectativas sociais e económicas, mas escolhe procurar sentido para a sua vida. É a história de alguém que decide viver segundo a sua própria verdade, mesmo que isso implique pagar um preço elevado”.

Bastien Bouillon

Apesar do filme poder ser lido  como uma crítica ao sistema económico atual, onde o trabalho é cada vez mais desumanizado, Valérie Donzelli sublinhou é que é importante distinguir a história de Franck da dos milhões de pobres que sobrevivem em condições precárias, independentemente das opções pessoais que tomem. “O  que vemos hoje é um novo sistema: o trabalho é regulado por algoritmos, por classificações, por avaliações dos clientes. Já não há espaço para solidariedade. É um mecanismo frio, que isola as pessoas e transforma cada trabalhador em concorrente do outro. No caso do Paul, a sua precariedade vem de uma escolha pessoal, de abdicar de tudo para escrever. Quis mostrar também essa nova revolução inquietante do trabalho e, ao mesmo tempo, sublinhar algo que acredito profundamente: a pulsão artística nunca desaparece. É algo intrínseco ao humano, que nos impele a criar, a imaginar, a resistir”.

No protagonismo encontramos Bastien Bouillon, um ator que Donzeli considera ser da “sua família do cinema”, com que trabalhou em  La Guerre est déclarée. “Quando li o livro, percebi imediatamente que o personagem me falava do meu próprio processo de criação — essa mistura de alegria, dor, dúvida e perseverança. Bastien tem essa força discreta. No início questionei se não seria demasiado jovem, porque no livro o protagonista teria perto de 50 anos. Mas quando Gilles Marchand e eu trabalhámos no guião, ficou claro: a sua juventude acrescentava ainda uma camada política à escolha do personagem, tornava-o mais radical. (…) Bastien tem uma sensibilidade enorme. Percebeu muito rapidamente a essência da personagem e trouxe-me ideias que me tocaram. Às vezes posso ser autoritária na forma como dirijo — por ter sido atriz, tenho uma noção muito concreta do trabalho. Com o Bastien houve um verdadeiro diálogo“.

Também presente na conferência de imprensa, Virginie Ledoyen, que atua no filme ao lado de Bastien Bouillon, descreveu o filme como radical, no melhor sentido da palavra. “Ser radical é estar no seu lugar, assumir a sua verdade sem compromissos. É isso que o filme transmite. Reconheço a Valérie nele, reconheço o Bastien. É uma obra dotada de uma força incrível, porque é coerente em todos os níveis: na adaptação, na encenação, na interpretação. Mais do que falar de mim, quero sublinhar essa radicalidade do filme, que é rara e preciosa“.

O Festival de Veneza prossegue até dia 6 de outubro.

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