Inspirando-se no trabalho de Monique Wittig, em particular “As Guerrilheiras”, a artista visual e realizadora Elsa Brès avançou com a sua primeira longa-metragem, “Les Sanglières”, onde imagina uma espécie de pacto secreto entre mulheres (e simpatizantes da causa) e javalis selvagens, num ato de resistência e desobediência ao capitalismo e patriarcado, enquadrado em três momentos diferentes na mesma região, as Cevenas (cadeia de montanhas localizada no centro-sul da França).
Assim, o filme que concorre na competição internacional do IndieLisboa, depois de passagem pelo Visions Du Réel, começa com uma revolta no século XVI de um grupo de mulheres que reivindicavam o livre uso dos pastos e florestas, partindo depois para tempos mais recentes onde a privatização da floresta é agora controlada/reprimida pelas câmaras de vigilância denunciadoras. É uma mulher – que de dia trabalha no plantio, mas que age como segurança noturna de um local onde o artificial e o betão avança – que tem nas suas mãos o denunciar ao sistema a “invasão” de um grupo de javalis.
Conceptualmente interessante e apoiando-se em alguma iconografia antiga reveladora de uma guerra de opressão antiga entre homens e javalis selvagens, enquanto usa como núcleo uma toada anticapitalista e feminista, “Les Sanglières”, como proposta cinematográfica, que se sente sempre como uma curta enfiada nas roupas de média ou longa-metragem, falha, pois depende mais da sinopse que a acompanha do que das imagens (e sons) que cria para o filme per se. Construído sobre o chavão do “cinema do real”, onde documentário e ficção se cruzam como ato artístico “experimental” contra o massificado e industrializado – que funcionam como sinónimos do capitalismo que se quer alegadamente combater-, “Les Sanglières” fica-se pelas suas intenções textuais, pois no seu legítimo (e corajoso) ato de não seguir um storytelling tradicional, nem apoiar-se em palavras (monólogos ou diálogos em si), mostra-se incapaz de entregar Cinema que não se sinta ser feito apenas para um nicho hipster de “artivistas” privilegiados que, mais que fazerem pensar e refletir sobre as reivindicações e injustiças que tentam retratar, oferecem alienação.
Uma sequência de um javali a caminhar pela floresta com uma câmara em modo POV, criando uma espécie de registo found footage, e a rebeldia da segurança noturna em abandonar a tarefa para ir à festa da vila, são a cereja no topo de um filme que nunca o é além do texto escrito e embelezado por parte de programadores e curadores de festivais (e galerias de arte). E se pensarmos na frase que Monique Wittig usou e aplicarmos à 7ª Arte – ”É bem possível que uma obra de literatura opere como uma máquina de guerra na sua época” -, veremos que “Les Sanglières” fica-se pela ideia de ser muito mais do que o que realmente é.



















