Foi preciso surgir um arlequim italiano, Stefano Vanzina (1917–1988), mais lembrado pelo pseudónimo Steno, para que o cinema pudesse rir com o tema da imigração — jamais de — ao vermos Bud Spencer (1929–2016) no papel de um expatriado dos EUA numa republiqueta sul-americana que acolhe as diferenças que o rodeiam, em Banana Joe (1982). Pela mesma altura, em 1984, o hoje esquecido Paul Mazursky (1930–2014) escolheu Robin Williams (1951–2014) para a figura do saxofonista soviético que pedia asilo na 5.ª Avenida em Moscow on the Hudson (Um Russo em Nova Iorque; no Brasil, Moscou em Nova York) e, a dado momento, partilhava com exilados do mundo inteiro, num bar manhoso, o gozo da palavra “liberdade”. A publicidade do American Dream prostituiu-a. Depois veio Trump e condenou o termo a uma injeção letal de intolerância, o que torna um experimento como Quase Deserto num libelo político — imperfeito, mas imperdível — sobre a ressaca desse sonho. Exibida na competição pelo Troféu Redentor do Festival do Rio, esta comédia de erros de José Eduardo Belmonte nasceu numa ponte aérea Brasil–Estados Unidos, com ligações meio uruguaias, meio argentinas, e direito a uma sequência final — já com os créditos a subir — de pôr o cinema abaixo.

A escolha de Detroit — a cidade de RoboCop, terra de uma indústria automóvel arruinada — para epicentro geográfico da trama evoca um dos cronistas daquelas paragens, Jim Jarmusch, também pela centelha de Stranger Than Paradise (1984) naquele canteiro de almas danadas. É talvez o melhor Jim Jarmusch que Jarmusch não filmou, com um clima de inquietação existencial bem afim ao de Down by Law (1986) — também sobre um imigrante (Roberto Benigni) fora de casa. Só que aqui a latinidade é a de um Belmonte outonal, com fotografia hiper-realista (Leslie Monteiro).

Numa Detroit pós-pandémica, dois imigrantes latinos sem lenço nem documento, o argentino Benjamín (Daniel Hendler) e o brasileiro Luís (Vinícius de Oliveira, em composição caudalosa), veem-se envolvidos num homicídio e, sem querer, resgatam a única testemunha: Ava (Angela Sarafyan), uma mulher com uma síndrome rara que lhe confere um olhar típico de criança, dificuldades de socialização e uma perceção para lá do comum. Ela vê o que mais ninguém vê. Agora, esta tríade improvável protagoniza a sua própria aventura, em busca do que a filosofia trumpista retirou dos dicionários: acolhimento.

Belmonte é um cineasta que já filmou de tudo, do thriller de ação (Carcereiros) à love story (Entre Idas e Vindas), com direito a uma comédia noir — o genial Gorila (2012). Toda a sua obra em longas-metragens, erigida a partir de Subterrâneos (2003), assenta em almas no purgatório de si próprias, sedentas de reinvenção. Basta olhar a sua obra-prima, Se Nada Mais Der Certo (2008) — espécie de Sam Peckinpah meio brasiliense, meio paulista, com ginga carioca, estruturado na lógica “pé na estrada” (road movie) — para dimensionarmos a sua predileção temática e a sua potência na realização. Um dos mais provocadores realizadores do seu país — aliás, é surpreendente que uma filmografia deste calibre ainda não tenha desbravado continentes com o devido destaque —, Belmonte afirma-se autoral nesse interesse continuado por subjetividades alquebradas. Faz filmes sobre gente de espírito fraturado que, em situações de risco, encontra uma felicidade provisória… ou clandestina. E há ainda a assinatura própria nos seus enquadramentos, sobretudo nos planos mais fechados.

É o que se vê nesta ciranda de pessoas sem casa que procuram a sensação de aconchego num país outrora tratado como “o” império deste mundo, na sua estratégia retórica de usar o verbete welcome (“bem-vindo”) como rito de adesão a uma ideologia de poder. Esse espectro ideológico, hoje, é cerceamento e castração. É nessa zona cinzenta que losers sem norte fazem do abraço um abrigo, numa edição impecável, assinada pelo próprio Belmonte, assente numa direção de arte apolínea da sempre assertiva Monica Palazzo. A presença de Alessandra Negrini como Milena, latina que forja uma união com Luís, é hilariante.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
quase-deserto-um-jim-jarmusch-a-brasileiraA escolha de Detroit — a cidade de RoboCop, terra de uma indústria automóvel arruinada — para epicentro geográfico da trama evoca um dos cronistas daquelas paragens, Jim Jarmusch, também pela centelha de Stranger Than Paradise (1984) naquele canteiro de almas danadas.