Recompensado com um merecido Óscar, em 2001, pela sua atuação no Coliseu de Gladiador, Russell Crowe navega por marés das mais bravias sempre que o seu temperamento atropela o profissionalismo. Ondas de tensão já ribombaram nos sets em que foi estrela ou ator secundário e, nos bastidores, a sua paciência é célebre por não ser das maiores. Por vezes, o seu trabalho limitou-se a um cumprimento burocrático de rubricas de guião. Mas, quando se sente motivado, quando quer, um vulcão entra em erupção — como acontece no thriller de tribunal Nuremberg. Nada do que se viu até agora na disputa pela Concha de Ouro de 2025 é mais mainstream do que esta recriação dos julgamentos de líderes do partido nazi no final da década de 1940.
Longe de qualquer ambição de tom experimental habitual nas maratonas audiovisuais europeias, o filme revela este ano uma rara destreza no manejo das cartilhas políticas aplicadas a dramaturgias de época. O elenco inteiro tem oportunidade de brilhar, mas é Crowe que serve de aríete, consolidando a luta do produtor e realizador James Vanderbilt para falar do Mal sem tipificações fáceis, empenhado em representar as suas personagens sob um prisma humanista.
Há uma década, Truth fez dele realizador, numa iniciativa paralela ao seu trabalho como produtor. A estreia, em 2015, já se esgueirava por conflitos morais centrados em dilemas éticos, aplicados ao Jornalismo. A verdade que agora o mobiliza remete não apenas para o Holocausto com H maiúsculo da II Guerra Mundial, mas também para os holocaustos quotidianos que repetem a dinâmica da exclusão de povos em condição histórica de vulnerabilidade. A toda a hora, o guião de Nuremberg reitera a hipótese de que o inferno é recorrente, uma vez que os crimes de ontem estão sempre à espreita para serem repetidos no presente. A bestialidade trumpista é prova disso — e torna o espetáculo narrativo tão urgente quanto aplaudido. Houve aplausos a meio da projeção para a crítica em Donostia, como reação a diálogos cortantes.
Com uma montagem frenética, febril até nas sequências de conversa, Nuremberg coloca-nos no centro dos julgamentos conduzidos pelos Aliados após a derrota do regime nazi. O psiquiatra americano Douglas Kelly (Rami Malek, num banho de carisma) é encarregado de avaliar a saúde mental dos prisioneiros nazis e determinar se estão aptos a ser julgados pelos seus crimes de guerra. De um dia para o outro, Kelly vê-se envolvido numa complexa batalha de inteligência com Hermann Göring (Crowe, colossal), o oficial que foi braço direito de Hitler. Michael Shannon e Richard E. Grant juntam-se à trupe das figuras que julgam os verdugos da SS. Cada um deles tem a sua persona dissecada com requinte crítico no olhar de Vanderbilt. Todos carregam ódios, todos têm sede de justiça. Mais do que isso, todos sabem que, num estalar da História, novos campos de concentração podem erguer-se em qualquer pátria. Göring é o único a não se importar. Não é maldade o que o move, mas uma noção torta de dever. Uma noção que mata.
Para filmar Nuremberg, Vanderbilt optou pela sobriedade e chamou Dariusz Wolski, parceiro habitual de Ridley Scott, que nem sempre acerta no grau de contenção da temperatura da cor. Aqui, o acerto é dos mais altos.




















