Num evento em que na sua Quinzena de Cineastas “La danse des renards” mostrava uma curiosa inflexão ao modelo de filmes sobre o boxe, na forma de um coming-of-age tão energético como maduro que chegava até nós em modo uppercut, eis que na Un Certain Regard de Cannes, um outro filme brinca também com variações de tom e género, brindando-nos com alguma frescura narrativa. Esse filme é “Météors”.
Iniciado o filme na linhagem de comédias espampanantes, aqui olhamos de imediato para dois amigos entregues à farra. Mas se pensamos que estamos perante um “Cheech and Chong” ou “Harold e Kumar” no seio do interior francês, em cidades pequenas lentamente a desfalecer, ou que vamos assistir a um “Babysitting” quando a dupla enlouquecida pelas adições rouba um gato de raça campeão para ganhar algum dinheiro, eis que a realidade choca de frente com os dois e, no processo, conosco. Detidos e encarcerados, os dois têm de provar nos próximos seis meses que conseguem organizar as suas vidas, escapar a misérias, e evitar as penas de 5 e 10 anos de prisão que respetivamente os esperam. Ainda assim, o filme poderia continuar por um rol imenso de peripécias, mas Hubert Charuel e Claude Le Pape, na escrita, têm intenções bem mais ligadas ao realismo e comentário social, mostrando que um grande entrave à reabilitação pessoal (que também é coletiva no sentido da amizade dos dois) está no facto de ambos viverem numa região economicamente pouco ou nada vibrante, primando a ausência de oportunidades e um declínio social assustador.
Hubert Charuel, que surpreendeu o cinema com um thriller dramático impressionante na sua estreia em 2017, “Petit Paysan”, volta novamente ao território onde cresceu, Saint-Dizier, no Haute-Marne, para, ao segundo filme, mostrar algumas das razões porque decidiu partir, voltando apenas para narrar histórias atrás de histórias de pessoas enclausuradas num mundo que as fecha em si.
E, ao contrário de “Paysan”, que era sustentado por o exército de um homem só no mundo da agropecuária (Swann Arlaud num papel maravilhoso), Hubert Charuel e Claude La Pape centram agora atenções na evolução de uma juventude e de uma amizade pressionada entre restrições, desejos e vontades individuais, tudo numa cidade moribunda e onde a única indústria de relevo que ainda existe é a de limpeza de resíduos nucleares.
Mika (Paul Kircher) e Daniel (Idir Azougli) são os dois amigos inseparáveis, partindo em aventuras sem limites, típicas de uma juventude que se sente imortal e que só acorda (quando acorda) quando a mortalidade lhes bate à porta. Mas como qualquer motorista pode querer acelerar para evitar um acidente, e outro pode travar para o mesmo propósito, os dois amigos têm visões diferentes sobre o rumo que querem seguir, ainda que ambos – de forma ilusória e infantil – frequentemente mencionam um plano de ir visitar a Ilha da Reunião.
Neste sentido, Daniel é o mais problemático, pois apesar de ser avisado por um médico que se não parar de beber pode morrer daqui a três anos de cirrose, não consegue controlar a sua dependência, escolhendo frequentemente ignorar os sinais (epilepsia) e avisos (do médico, do tribunal, do amigo) para mudar a sua vida. Já Mika, que trabalha numa cadeia de Fast Food e caminha por todo o filme com o rosto de pássaro engaiolado num mundo demasiado pequeno, assume – como forma de “razão” para a sua existência – uma postura paternalista e de salvador para Daniel, o que vai chocar de frente com a liberdade deste, gerando conflitos inevitáveis, principalmente quando ambos começam a trabalhar para um terceiro amigo inseparável, Tony (Salif Cissé), que tem uma empresa de limpeza de resíduos nucleares, e um acidente acontece.
O que começa como bro comedy, passa pelo drama de declínio social e acaba como coming-of-age de abraço à maturidade, demonstra uma nova vitória para Hubert Charuel no olhar cuidado para um território esquecido, uma cidade-sucata. Não está de todo ao nível de “Petit Paysan”, mas tem suficiente força e comentário social e político para fazer um curioso circuito comercial, até porque já percebemos, como “Vingt Deux” também o mostrou nas bilheteiras gaulesas, existe uma nova geração de cineastas, que curiosamente vou chamar de coletes amarelos do cinema, que apontam cada vez mais as suas lentes para a ruralidade francesa e as suas disparidades e faltas de oportunidades em comparação com as grandes cidades (Paris, no centro de tudo.
E estes “coletes”, como Hupert ( “Petit Paysan” já se inseria nisso), não estão para protestar violentamente num grito desesperado de “basta”, como algum do cinema sobre o banlieue o faz, mas sim suavemente, ora via naturalismo, ora do realismo social. E nesse processo, saltam para a ribalta histórias de invisibilidade humana, destruição urbana e segregação social, com olhos postos numa juventude que é forçada a sair de onde nasceu para, nos mínimos, viver e não sobreviver, mantendo ou não as amizades que construiu e cimentou ao longo da vida.



















