Calcado numa dinâmica de afeto sobre a construção de vínculos clânicos como só se via na produção autoral pop dos EUA dos anos 1980, Predator: Badlands edifica-se sob uma noção de matilha — não apenas a biológica, mas a que nasce como gesto físico e se transforma em construção social. A ideia de que a Família, com F maiúsculo, não é ditada por laços de sangue, mas por afinidades, confere um tom vintage a uma ficção científica suja de sangue, que evoca marcos dos animes e das mangas. Carrega traços explícitos de Nausicaä do Vale do Vento (1984), de Miyazaki, e de Ghost in the Shell (1995), de Mamoru Oshii. Evoca ainda Enemy Mine (1985), o tratado etnográfico de Wolfgang Petersen sobre alteridade.
No meio de todas estas alusões, encontra-se um traço identitário de Dan Trachtenberg, que se fez uma promessa como realizador há nove anos, com 10 Cloverfield Lane (2016). Ele resolveu um problema histórico da Fox (Disney na atualidade) em relação à franquia Predator, iniciada em 1987 por São John McTiernan (santo padroeiro há muito caído do Cinema de ação). Muito se fez na indústria para que o ritmo climático da longa original fosse reproduzido nas suas sequelas, quase todas pavorosas. O maior erro: não era o monstro que caça por desporto e por vocação genética que atraiu as plateias no fim dos anos 1980; foi Arnold Schwarzenegger. Jamais conseguiram trazer Dutch, a personagem do Maciste austríaco, de volta. Assim, a estrutura dramatúrgica de humanos reduzidos a cordeiros sob a mira de uma ave de rapina estelar nunca mais pegou — destaca-se aí a malfadada tentativa de crossover com os aliens de Alien (1979), de Ridley Scott.
Trachtenberg tentou e quase conseguiu salvar a pátria numa produção de 2022, Predator: Prey, ao mostrar as origens da incursão dos extraterrestres de caça na Terra, em luta contra uma jovem indígena. Havia ali material interessante, mas afogado num mar de correção política panfletária. Com Badlands, que custou 105 milhões de dólares, isso sai de cena. Dá lugar a uma cartilha à moda oitentista de aventura, com combates feéricos.
O foco aqui é o “bicho” em si — o alienígena do título. Os Predadores são seres da raça Yautja, que se movem por regras bélicas, fiéis a um ethos determinista. Fracos devem ser eliminados. Até os pais se livram da sua prole sob tal credo. É assim que somos apresentados ao jovem Dek (numa delicada interpretação de Dimitrius Schuster-Koloamatangi), um extraterrestre mais fraco e menos preparado para o front do que os seus pares. Acossado pela figura paterna, parte para o planeta ferocíssimo chamado Genna, à procura da criatura Kalisk, um prometeu da floresta.
Na busca atrapalhada por rastos desse ser, Dek cruza-se com uma androide de fuselagem danificada, Thia (Elle Fanning, comovente em cena), que atingiu um eruptivo padrão de humanismo no amor pela sua gémea robótica desaparecida, Thessa. Esta é amada por Thia como se fosse uma irmã, mas não se pode prender aos seus sentimentos — está submissa à diretriz de servir como uma vassala à empresa por trás da sua génese. Dek sofre nas mãos dessa máquina, mas uma lição sobre lobos e senso de coletividade desarma a sua programação assassina e leva-a a proteger as amizades que cria.
Esse enredo digno de uma Sessão da Tarde/Matiné desenvolve-se como um jogo de pinball com viragens que torcem o futuro de todos em cena e elevam a pressão do público numa montagem frenética. Os efeitos visuais trazem um frescor que espetáculos de natureza violenta há muito não possuíam. Impulsionado por eles, Dek prova ser um guerreiro alinhado com as pautas do contemporâneo, sem medo de derramar as hemácias alheias.




















