‘Malês’: Antonio Pitanga prepara o ‘Pantera Negra’ da luta antirracista brasileira

(Fotos: Divulgação)

Até o dia 25 de março, um património vivo do cinema moderno na América Latina, o ator Antonio Pitanga, vai aplicar tudo o que aprendeu ao longo de 63 anos de carreira nos sets de Malês”, no qual ocupa também o posto de realizador. É uma reconstituição histórica, feita na cidade de Cachoeira, na Bahia, de um levante antiescravagista ocorrido no Brasil, em 1835, encabeçado por um grupo islâmico oriundo da África Muçulmana. O roteiro, que é assinado por Manuela Dias (autora da telenovela Amor de Mãe), mostra como o grupo se articulou com outras populações negras, a fim de reagir, até ser brutalmente silenciado.

Quem assina a produção é o cineasta Flávio Tambellini, que ajudou a tirar do papel filmes de culto premiados como Mutum(2007), de Sandra Kogut, e O Diabo A Quatro(2004), de Alice de Andrade. No elenco, além do próprio Pitanga; da filha, Camila; e do filho, Rocco; estão estrelas como Patrícia Pillar, Wilson Rabelo, Bukassa Kabengele, Rodrigo dos Santos, Samira Carvalho, Heraldo de Deus, Thiago Justino e Nando Cunha.

É a segunda vez que Pitanga realiza. Em 1978, ele rodou Na Boca do Mundo, que chegou a ser elogiado pela nata da crítica francesa. O mesmo pode acontecer com Malês”, que deve ser montado até setembro, para tentar a sorte nos festivais do primeiro semestre de 2024 e estrear comercialmente em maio do ano que vem. Quando iniciou a primeira parte das filmagens, em Maricá, no Rio, Pitanga deu uma entrevista (ao Correio da Manhã RJ), dizendo: “A Bahia desse filme é a Bahia do meu primeiro beijo, da minha primeira dança, das lutas, de uma população negra que faz dela uma pequena África. A Bahia me esculpiu e me deu berço. Se ventar todo o vento deste mundo, no que estiar a ventania, eu estarei na Bahia”.

Na entrevista a seguir, o cineasta explica ao C7nema qual é a realidade da luta antirracista que escolheu retratar.

Aos 83 anos, o ator e realizador Antonio Pitanga (de boina, ao centro) dirige Rodrigo de Odé e Bukassa Kabengele em “Malês, na Bahia – Foto de Vantoen Pereira Jr.

Qual é a representatividade de “Malês” na luta contra o racismo hoje e na afirmação da busca de um realizador negro para fazer cinema num Brasil que acaba de se livrar de Bolsonaro?

Fiz cerca de 80 filmes desde os anos 1960. Vi Cannes aplaudir Ganga Zumba”. Vi a crítica francesa elogiar a minha primeira longa-metragem, Na Boca Do Mundo”. Mas vi, sobretudo, a génese de muitas gerações de artistas negras e negros. Cada filme que fazemos é um grito, ainda que cada um grite à sua maneira. Levei anos para fazer este filme. Estava nas filmagens de A Idade da Terra, com Glauber Rocha, quando falamos do projeto pela primeira vez. Glauber queria produzir para que eu dirigisse. Ele morreu, eu tentei de muitas maneiras, tive muitos filmes para fazer como ator no meio do caminho e demorei a encontrar apoio. Infelizmente, pelo que nós vimos no Brasil nos últimos quatro anos, somos um país que açoita o conhecimento, a cultura. Mas há um grito preso na minha garganta. Encontrei no Flávio Tambellini um produtor que se mobilizasse a me ajudar para dar esse grito. Cada um de nós, negras e negros, que filmamos no Brasil, somos um levante. Nós estamos, hoje, compondo um coletivo com os malês.

Pitanga com o produtor Flávio Ramos Tambellini nos sets em Cachoeira: filme recria a revolta antiescravagista de 1835, comandada por muçulmanos

Na Bahia, essa história dos malês é conhecida até hoje? Quando a conheceu?
Vou fazer 84 anos no dia 13 de junho. Desde criança, ouço falar disso. Em 1949, estava na Ladeira de São Bento, em Salvador, quando passar um grupo cultural, que chamamos de afoxé, e que estava nascendo. Era o grupo Os Filhos de Gandhy. Já era um sinal da memória do levante de 1835. Mas o Brasil, como um todo, não conhece sua própria História. O que eu vou fazer aqui é usar o cinema para botar essa história na vitrine e torná-la gigante. A Manuela Dias me deu um roteiro em que posso desafiar a zona de conforto do discurso oficial e valorizar a luta das mulheres. Não quero um filme de vítimas. Quero filmar negras e negros cheios de conhecimento que entenderam a importância da união, do coletivo.  

O cinema pode esperar um “Pantera Negra” brasileiro de seu “Malês”?

Quero poder discutir sobre o levante dos Malês com as minhas netas. E quero, daqui há uns 16 anos, quando eu chegar aos cem anos, poder seguir a discutir sobre o levante com a juventude de então. Eu comecei a fazer cinema numa época de negativos Kodak e de câmara com chassi. Hoje é cartão de memória, tudo digital, mas eu estou nos sets, e não estou deligado do olhar e do olhar político do nosso tempo. Malês surge para ser um grito e vem com uma carga de épico, sem vitimismos. Há espaço pro heroísmo. Seria, portanto, um Pantera Negra sob a nossa perspectiva, o nosso conhecimento. É uma revista à História cheia de Humanismo.

Malês” traz seus filhos, Camila e Rocco, no elenco, mas aposta em muitas atrizes e atores de prestígio. Como é estar também no elenco?
Atuei em “Na Boca Do Mundo” também e faço aqui o papel de um dos líderes da revolta, Pacífico Licutan. Chego nesse set trazendo comigo um desejo de luta. Levei 45 anos pra fazer um segundo longa, mas essa demora não foi por acaso. Aprendi muito, atuando no filme de muita gente, fazendo filmes como Casa de Antiguidades”, antes de dizer “É Agora!” e encarar a dificuldade de alinhar minhas ideias com que se dispusesse a me apoiar. Chegou o momento de conversar sobre o levante.

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