Habituado a lidar com temas politicamente relevantes como as injustiças provocadas pelo capitalismo selvagem e a eterna “luta de classes”, como se viu em “Parasitas” e “Snowpiercer”, por exemplo, o sul coreano Bong Joon Ho regressa agora com mais uma crítica avassaladora, mas ao invés de optar pelas via dramática da sátira subtil, o cineasta escolhe antes o registo da comédia negra sci-fi para imaginar um mundo repleto de injustiças que levam a uma emigração em massa para o espaço. Na verdade, neste mundo autocrata dominado por uma gentalha que procura purificar a raça das “pessoas de bem”, há mesmo programas espaciais destinados a explorar a massa descartável do planeta a bem de um “sistema” com ambições expansionistas.
É Robert Pattinson, como Mickey Barnes, com um timing para a comédia negra que surpreende (a sua voz foi inspirada no Steve Buscemi de “Fargo”), que serve de motor de toda a ação, ao se inscrever num programa espacial no qual será designado como “expendable” (descartável), ou seja, fugindo de um agiota que o persegue na Terra depois de um mau negócio, ele entrega o seu corpo alma para o funcionamento do “sistema”, sendo a “morte” uma certeza. E quando falamos de “morte” não falamos do fim, pois cada vez que ele falece (normalmente de maneira bizarra), uma nova cópia dele é impressa, criando assim a derradeira fantasia neoliberal: um “trabalhador” que morre, mas renasce infinitamente, com os conhecimentos e memória do anterior. Tudo vai correndo bem para o patronato até ao momento em que o Mickey, na sua 17ª versão, acaba por não morrer quando se esperava, gerando um crime hediondo para o sistema em vigor: a existência de “duplicados”, pois o Mickey 18 já está ativo e vai conhecer o seu antecessor.
Cabe a Mark Ruffalo e Toni Collette, fortemente estilizados em todos os mais ínfimos detalhes (a lembrar a toada clownesca que vemos em diversas personagens da filmografia do cineasta), a liderança rumo à expansão espacial e à criação de colónias para aquilo que os autocratas vida chamam de “gente de bem” ou “puros”, mesmo que para isso o genocídio de uma espécie alienígena nativa de um determinado planeta esteja no horizonte e nos planos.
Embora abarque um sem número de questões políticas, sociais e até filosóficas que exigem alguma profundidade, “Mickey 17” – baseado no romance “Mickey7” , de Edward Ashton – veste sempre a roupagem do entretenimento, deixando as farpas que vai lançando para interpretação (e reflexão) do próprio espectador.
Destaque ainda no elenco para as personagens interpretadas por Naomi Ackie e Anamaria Vartolomei, cuja ação e preponderância no filme vão além do serem “damas de companhia” de Mickey (o 17 e 18), Na verdade, Bong Joon Ho incute nelas não apenas a força para o combate, mas a destreza de serem peças essenciais para o humor, quando articuladas com um Pattinson em bom registo.
O resultado final é que estamos perante um belo exemplar de como o cinema comercial pode perfeitamente falar de política, economia e sociedade. E, para isso, não precisa ser panfletário ou manipulador. Basta apenas comparar o que vemos nesta sátira sci-fi para encontramos facilmente paralelo no nosso mundo e na nossa história.




















