Com duração de 84 min, Panquiaco (2020) é a primeira longa-metragem ficcional dirigida pela realizadora panamenha Ana Elena Tejera, que também é atriz.
A sinopse do filme descreve: “Há muitos anos, Cebaldo despediu-se da sua família, que faz parte da população indígena do Panamá. Agora, ele trabalha num porto no norte de Portugal e todas as noites é contagiado por uma sensação de nostalgia. Em sua solidão, as lembranças o afastam da sua rotina diária e o mergulham em uma jornada de volta à sua aldeia em Guna Yala, onde um médico botânico o confronta com a impossibilidade de retornar ao passado. Uma pesquisa sobre histórias e mitos pré-coloniais em uma narrativa que mistura textos poéticos e imagens”.
Cebaldo interpreta a si mesmo e vive um conflito real. O cenário da ficção e da realidade se encontram.
Mas o que é verdade e o que foi inventado? O que de facto aconteceu na vida de Cebaldo (ator e pessoa) e o que foi criado para o filme?
A realizadora borra as fronteiras das duas formas narrativas, a ficcional e a documental, cria uma estética sublime, imprime um tom poético e uma atmosfera indagadora. O protagonista vive um atravessamento do lugar de origem para o lugar onde vive, um homem sem sentimento de pertença a uma identidade delimitada.
Rodado em Portugal e no Panamá, parte do filme se passa em Vila do Conde e Póvoa de Varzim, e a maioria das cenas nas comunidades USTUPU e Campo Laurel, no Panamá.
O filme retrata, portanto, o passado e o presente da personagem Cebaldo confrontando a impossibilidade dele retornar ao passado.
Na pacata Vila do Conde, Cebaldo sobrevive enquanto pescador, um homem panamenho de poucas falas, que “em sua solidão, as lembranças o afastam da sua rotina diária e o mergulham em uma jornada de volta à sua aldeia em Guna Yala”, como exposto na sinopse.
Em terra lusa ele evoca as suas memórias por meio de uma mesma música tocada numa jukebox, através de vozes registadas num gravador portátil antigo, vozes de familiares que esperam por ele, sem saber por onde anda e quando retorna. Há também a memória de uma resumida carta que ele escreveu ao seu irmão. Irmão que mais adiante ele vai reencontrar no Panamá.
A história de Cebaldo provoca algumas questões:
Por qual razão teria ele migrado do Panamá para Portugal?
Qual é a sua relação com este país tão distante daquele da sua origem?
Quem e o que ele deixou para trás?
O que o mantém no destino atual, o que carrega do antigo e quais memórias busca recuperar?
Nas pequenas cidades portuguesas ele é um migrante panamenho que trabalha no Porto local em busca do seu sustento e deixa os dias passar sem pressa numa rotina cómoda.
Migrar coloca as identidades em suspensão, traz profundas incertezas para a vida do migrante e provoca uma distensão entre o antes e o agora, entre passado e presente.
Aos 23 min do filme, há uma cena simples e envolvente que nos dá pistas do passado do protagonista, ele está sozinho num bar a tomar uma cerveja, um estranho chega e senta-se perto dele para tomar um tinto. E então, o homem narra-lhe uma história:
“Havia um marinheiro que se naufragou numa ilha deserta, como não podia voltar atrás, sempre se lembrava da sua terra, sofria e ficava triste. Então começou a sonhar com um novo país e a criar paisagens, ruas, bairros inteiros, toda espécie de animais e árvores. Até que começou a criar pessoas. Criou o lugar onde nasceu, lugar em que passou a ser a sua terra de infância. Depois veio um eclipse e o marinheiro acordou, e não tinha mais lembranças, passou ao esquecimento, tinha esquecido tudo da sua terra, sua terra tinha passado como um sonho”.

Cebaldo se silencia e o homem sai de cena.
A narrativa fílmica cruza deslocamentos físicos, culturais e existenciais, mistura tempo e memória, o passado de Cebaldo numa pequena comunidade indígena do Panamá e o presente insosso de sua vida numa localidade portuguesa.
No plano da realidade, o homem Cebaldo de Leon Smith é Antropólogo, Historiador e Investigador do CETRAD (Centro de Estudos Transdisciplinares para o Desenvolvimento da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro – Porto). Ele, que entre 1979 e 1984 foi investigador na Universidade Estatal de Voronez na Rússia. E deixou o Panamá para viver na Europa há décadas. Os temas território, terra, identidade e comunidades indígenas são áreas de sua atuação na academia.

Alguns dos seus parentes ainda permanecem no território do seu passado, como vemos no filme numa cena em que o migrante Cebaldo retorna a sua pátria, a terra-mãe e conversa com seu irmão, que o questiona:
“Se você ficar, vais recuperar algo do que perdeste. Deixaste esta terra muito jovem, agora estás velho, já não é mais o mesmo. E se voltas pode se lembrar, retomar as suas raízes pode te ajudar, mas as memórias que procuras não estão mais aqui. Teus antepassados já não estão aqui, e agora sentes este lugar vazio”.
Cebaldo escuta tudo com atenção e pouco reage.

Ele se distancia do lugar onde nasceu e volta para confrontar a si mesmo e o tempo vivido, e a rememorar o que passou. Um passado impossível de recuperar por inteiro. Há demasiada distância entre os dois irmãos e os lugares aquele que Cebaldo viveu e aquele que agora habita na vida em degredo. Há coisas que o tempo apaga e já não se pode mais aceder. Resta reconhecer o território e seguir o movimento e ritmo da vida de onde se escolheu estar, e deixar para trás os sentimentos que já não se pode ter. As raízes identitárias são como as plantas e precisam ser cultivadas, senão sua força se esvai.
Depois de tanta ausência e afastamento da sua aldeia, quando a ela retorna Cebaldo parece sentir-se um estranho, e estar a perceber o lugar como um antropólogo, já não consegue se integrar nos costumes, tradições e práticas ritualísticas do seu povo, mesmo se esforçando.
Contudo, parte daquilo que já viveu irá de algum modo conservar consigo para onde quer que vá. Quando deixamos as nossas raízes, incorporamos outras experiências, culturas e hábitos, construímos uma nova narrativa para a nossa existência.
Cebaldo embora esteja a viver há cerca de 30 anos ou mais em Portugal, conserva rastos do que foi e vivenciou até à sua juventude numa comunidade indígena do Panamá, e o filme rememora e reativa este tempo pretérito.
Pensando nos mitos coloniais, Panquiaco diz respeito a um indígena que se encontra com o desbravador espanhol Balboa, mostra-lhe o oceano Pacífico e acaba por se entregar às águas após o mar lhe perguntar: o que me fizeste?
O filme Panquiaco está disponível online na EU-LAC Fondation e foi exibido em vários festivais de cinema pelo mundo, incluindo o DocLisboa e a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ambos em 2020.
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