Nietzsche (1844-1900), como bom amigo que é (da sabedoria), avisou: “Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha de volta para ti“. Mas nenhum aforismo proferido pelo seu frondoso bigode aborda um olhar míope, incapaz de fitar o abismo e de o perceber à distância, sob a ótica do porvir… pelas hipóteses de futuro… como sucede com as personagens de Querido Mundo. É num abismo — simbólico e físico, de ilusão e cimento — que decorre a terceira longa-metragem realizada pelo ator Miguel Falabella, o Caco Antibes de ontem e de sempre. Há ruínas do que deveria ser um apartamento (tipo flat) confortável na trama. É nas vésperas de uma passagem do ano que um homem e uma mulher confirmam a tese defendida pelo poeta Lindolf Bell (1938-1998): “Sempre há duas solidões que se aguardam“.
Elsa (Malu Galli) queria ser arqueóloga. Muita gente despreza quando ela confessa esse anseio de juventude, que por lá ficou. Casou e desistiu do futuro Indiana Jones. Casou mal. Gilberto, o marido (encarnado com agonizante toxicidade por Marcello Novaes), bate-lhe. Chega a usar um bacalhau como arma de agressão. Cada bofetada amplia o ódio que Elsa sente, dele e da sua escolha infeliz. Só que, como escreveu o dramaturgo Jean Anouilh (1910-1987): “Existe o amor, é claro; e existe a vida, sua inimiga“. Amar não é ciência exata. Nem perdoar. Elsa perdoa… ou quase… porque ama, de forma tortuosa.
Tortas são as figuras geométricas no pretérito imperfeito profissional de Oswaldo (Eduardo Moscovis), engenheiro que é posto na rua, em despedimento sem remissão, por um erro nos seus cálculos, que custou a concretização de uma ponte na cidade de Olimpia. O viaduto desabou. Vacas morreram na queda. Depois disso, a hipotenusa do seu triângulo afetivo (mulher, filhos, engenharia) já não se submete à soma dos quadrados dos catetos da desgraça. O casamento com Odila (papel de Daniele Winits) acabou e o que era doce amargou. Restou-lhe um apartamento que não chegou a sair do papel. É aí que se encontra o tal abismo nietzschiano desta adaptação da peça homónima de Falabella, escrita com Maria Carmem Babosa (1947-2023), encenada em 1993 com Otávio Augusto e Joanna Fomm.
Esboço de lar, essa construção, que não foi além das vigas, do emboço e de esboços dos quartos, com água a escassear na torneira, acolhe também Elsa, depois de ela ser obrigada a sair de Olimpia, vítima da brutalidade de Gilberto. Tanto é assim que, na estrada para o Rio de Janeiro, o seu rosto com hematomas é notado por uma empregada de mesa de nome babilónico, Semiramis (Lilian Valeska), igualmente agredida pelo companheiro (Raul Labanca). O novo refúgio não lhe oferece qualquer promessa de acolhimento, mas não há alternativa, sobretudo depois de um acidente em que ela e Oswaldo se cruzam. Esse encontro é uma lufada de algo que nenhum dos dois parecia experimentar há muito tempo: cumplicidade. Nos corpos e nas almas.
A montanha de entulho onde este enlace amoroso se revela comporta-se como um palco na delicada construção narrativa de Falabella (em co-realização com Hsu Chien), que abraça um preto e branco com ecos da luz de Gianni Di Venanzo em 8½, na conceção fotográfica de Gustavo Hadba. Há cerca de uma década, nenhum diretor de fotografia brasileiro tem uma trajetória evolutiva (nos enquadramentos) tão sólida quanto a de Hadba, de O Grande Circo Místico (2008) a Chico Vento e a Goiabeira Maravilhosa (lançado em janeiro). Essa evolução atinge um novo pico com Querido Mundo, ao amadurecer uma parceria com Falabella que remonta a Polaroides Urbanas (2008) e ao encantador Veneza (2019). Estes três títulos têm teatro na essência, mas libertam-se dele para alcançar autonomia cinematográfica.
No caso de Querido Mundo, a música de Plínio Profeta serve de bússola ao lirismo que faz o lúdico da trama suavizar o realismo que a sustenta. Vem dele uma música também felliniana (como a de Nino Rota), que se soma às imagens que fazem Oswaldo, com os seus óculos de aro grosso, parecer Mastroianni. Eduardo Moscovis dá a este artesão da engenharia fragilidade e retidão, num paradoxo que extrai do ator uma interpretação ao nível do cinema moderno, com maior profundidade psicológica, como as comédias tristes à italiana que inspiram Falabella. Elsa transforma Malu Galli numa Anouk Aimée desterritorializada, como uma Cinderela sem o sapato. As aspirações foram-lhe roubadas ao longo de anos de agressões e submissões. Mas chegou a hora de o seu sol nascer.
Esse sol nasceu em Gramado, onde o filme fez Moscovis disparar nas preferências da cidade, entre os artistas em competição este ano. Foi ali que Falabella se afirmou como realizador com R maiúsculo, com segurança plena para se arriscar. Reúne um rol de colaboradores habituais das suas peças no ecrã, como Alessandra Verney e (numa atuação inspirada) Magno Bandarz. Oferece ainda espaço a grandes dobradores (profissionais da dublagembr), como Jorge Lucas e o já citado Labanca, para brilharem. A direção de arte de Tulé Peak sustenta bem a sua experiência, num jogo de cedências entre as artes cénicas e o ecrã.



















