Se é verdade (ou não) a máxima sobre a qual Woody Allen construiu todo o seu cinema, segundo a qual “o único amor que dura para sempre é o amor não correspondido”, “We Live In Time” (Todo o tempo que temos) faz questão de ignorá-la. Prefere celebrar a chance de o amar comportar simbioses plenas, de corpos e almas. Escolhida para encerrar o menu de 2024 do Festival de Sebastián, após uma passagem pelo TIFF, no Canadá, essa produção de Benedict Cumberbatch (o Doctor Strange da Marvel) renova uma tradição outrora muito perseguida pelo audiovisual inglês – vide “Brief Encounter”, de David Lean – que é a linhagem dos dramas românticos. Neles, o cogito woodyalleniano acerca da fugacidade do verbo “amar” inexiste, numa aposta em personagens que se desejam (e precisam um do outro) no limite da desmesura ultrarromântica. Não por acaso, essa linha dramatúrgica escasseou, pois esbarra na muralha do racionalismo e irrita as patrulhas moralistas da contemporaneidade.
Elas vão chiar diante de uma representação da vida a dois à “moda antiga” proposta pelo realizador irlandês John Crowley a partir de um argumento de Nick Payne. Vai também irritar (o politicamente correto) a representação crua, sem estilização, da nudez, aplicada ao par estrelas.
Existe um ethos nesse filme mais próximo do cinema popular praticado nos anos 1940 – tanto o de Hollywood quanto o britânico – do que do comportamento dos anos 2020. Temos um engenheiro informático, Tobias (Andrew Garfield, sublime em cena), que quer viver agarrado à sua paixão e ter filhos, de modo a repetir o pretérito perfeito que viu o pai experimentar. Temos também uma chef um tanto céptica, Almut (Florence Pugh, no seu desempenho mais sinuoso e mais tocante), que não se deixa amolecer por qualquer carinho, mas acaba arrebatada pelo jeito de bom rapaz de Tobias. Há incongruências entre eles, facto que há. Não se esqueçam da máxima do dramaturgo Jean Anouilh: “Existe o amor, é claro, e existe a vida, sua inimiga”. Apesar de ruídos aqui e ali, principalmente alguns que envolvem o desejo dela em não ser mãe, forma-se uma covalência da mais alta plenitude entre eles. Só que esse par vai formar um triângulo com um ente nada bem-vindo: um tumor nos ovários.

O que acompanhamos ao longo de uma hora e 47 minutos de uma montagem não linear, que volta no tempo aqui e avança nele acolá, é uma batalha épica, travada em dupla, não só contra uma doença terminal, mas contra o relógio. Evocar o marco das bilheteiras “Love Story” (1970) é quase uma imposição da cinefilia nossa de cada dia. Só não há, no filme de Crowley, uma banda sonora como a de Francis Lai, que embalava Ali MacGraw e Ryan o’Neal. Tudo bem, faz falta, mas não muito. A naturalidade dos diálogos de Nick Payne, somada à organicidade do casal Pugh + Garfield, compensa a falta de um mimo sonoro.
Encenador respeitado nos palcos, Crowley consegue se desvencilhar do desastre que foi “The Goldfinch” (2019) e se reciclar como cineasta com um retrato lírico, estruturado na chave gramatical da elipse, sobre companheirismo a qualquer preço, a qualquer custo. Deixa de bónus para o público uma sequência num parque de diversões que há de ser copiada por muitos casais.




















