O trauma (de infância), a manipulação (policial e psiquiátrica) e a dependência (física das drogas e emocional) são os pilares que servem de alicerces para “What Remains”, um drama embrulhado num thriller soturno contido sobre aquele que pensava ser o primeiro assassino em série na Suécia.

Vagamente baseado na história de Sture Ragnar Bergwall, também conhecido por Thomas Quick entre 1993–2002, “What Remains” aposta num tridente poderoso de personagens, para chegar aos seus intentos: Mads Lake (Gustaf Skarsgård, extraordinário no jogo entre contenção e explosão), um doente psiquiátrico que quer renovar a sua vida, Anna Rudeback (Andrea Riseborough), a terapeuta que se torna chave no desenvolvimento psicológico de Mads; e o polícia Soren Rank (Stellan Skarsgård), preso e pressionado superiormente a casos policiais  sem resolução. Os três partilham todos um variado leque de obsessões. Mads quer preencher o puzzle da sua infância carregada de traumas de alegados abusos sexuais que sofreu do pai. Já Anna, além da obsessão em ser mãe, que a leva a garagens obscuras à procura de uma semente anónima, está obcecada com o conceito de infância feliz, procurando preencher os espaços na memória de Mads através da manipulação de uma história traumática que encaixe na perfeição na criação do molestador assassino que acredita ter pela frente. E temos Soren, um polícia a recuperar de alcoolismo, que vive obcecado em resolver o caso do desaparecimento de uma criança há mais de uma década. 

Todos estes elementos juntam-se pela artesania e contenção estridente da realização de Ran Huang, que livremente adapta o caso que chocou a Suécia, entregando ao espectador um thriller plúmbeo comedido, mas profundamente eficaz no estudo de três personagens à beira da ruptura.

A fotografia, repleta de tons escuros e frios que nos levam sempre para zonas de desconforto, aliada a uma montagem competente que nos arrasta pelo meio da desumanidade (dos crimes e da injustiça no moldar da culpa) transformam este num objeto longe da toada exploratória do filme policial algorítmico que inunda o mercado cinematográfico, em particular no streaming, e até o literário, já que o thriller à la escandinava já saiu um pouco do seu modo trend de verão e vai-se apurando após a sua explosão bárbara em meados da década de 2000. E curiosamente, tal como Stieg Larsson no seu famoso “Os Homens que odeiam as mulheres”, os traumas familiares do passado e as dependências do presente moldam as ações e negritude de toda a atmosfera.

Uma surpresa incomodativa a sair da secção fora de competição do Festival de Locarno.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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