Custa ficar quieto na cadeira do cinema em Michael (2026), por ser um daqueles dramas históricos de raiz musical que, numa utilização do realismo com o máximo de meticulosidade, potenciam a sinestesia da linguagem decalcada do videoclipe e do registo documental de concertos. Sente-se um grande estádio, em pleno espetáculo. Sente-se como se estivéssemos nas ondas mais estroboscópicas do vídeo Don’t Stop ’Til You Get Enough (1979). Ou seja: Antoine Fuqua deu o melhor de si — o que já era considerável, dado o seu histórico — e foi além, com ambições estéticas. Só não espere polémicas da biopic de Michael Jackson (1958–2009) e prepare-se para ouvir frases de efeito, das mais intragáveis, e reflexões de bom-mocismo edulcorado, armadas para “canonizar” o seu protagonismo. Incomodam, mas passam. Fica um espetáculo tocante, com direito a uma sequência que pode colocar Mike Myers (o eterno Austin Powers) na rota dos Óscares, no papel do presidente da CBS Records, Walter Yetnikoff (1933–2021).
Há uma fome evidente do mercado por biografias musicais desde o fenómeno global de Bohemian Rhapsody (2018), realizado por Bryan Singer, que teve Myers no elenco. Essa produção custou cerca de 52 milhões de dólares e arrecadou quase 910 milhões em todo o mundo, consolidando um modelo industrial altamente rentável. Em comum com este filme está ainda o nome do produtor Graham King, também envolvido em Michael (2026), sinalizando uma estratégia de capitalizar a nostalgia e o culto de figuras icónicas da música popular. Não há um Rami Malek, mas há Jaafar Jackson, sobrinho de MJ. Este alterna o papel central com o jovem Juliano Valdi, sobretudo na fase dos Jackson 5 — a mais dolorosa em cena.
Estima-se que Michael (2026), lançado esta semana em vários territórios, venha a tornar-se a maior bilheteira do primeiro semestre de 2026 em poucos dias, com margem para ultrapassar os 700 milhões de dólares do seu principal concorrente, Super Mario Galaxy (2026), ao explorar a trajetória de Michael Jackson entre a infância, nos anos 1970, e a consagração de Thriller (1982), numa altura em que a MTV parecia resistente a ícones pop negros/as. Jaafar tinha cerca de 12 anos quando o tio morreu, em 2009, na sequência de uma paragem cardíaca que encerrou uma vida marcada por génio artístico e intensa controvérsia mediática. O filme insiste na dimensão da luta antirracista. Fuqua faz de MJ uma figura simbólica dessa resistência — um marco de prosperidade e afirmação cultural. A narrativa, no entanto, termina antes do lançamento de Black or White (1991).
Conhecido por êxitos como Training Day (2001) e a saga The Equalizer (2014–2023), Fuqua centra-se na relação (maniqueísta) do Rei do Pop com o pai, Joseph Jackson, interpretado por Colman Domingo com uma intensidade quase ditatorial. Não há empatia nesta figura paterna, apenas controlo e opressão. Domingo surge como uma das grandes forças do filme, compondo uma figura autoritária, quase arquetípica, cuja dureza evoca os pais possessivos dos melodramas clássicos. O ator atravessa um período de consagração desde 2024, com duas nomeações consecutivas aos Óscares. Ao seu lado, Nia Long acrescenta densidade emocional como Katherine Jackson, oferecendo um contraponto à rigidez patriarcal.
Amparado pela direção de fotografia de Dion Beebe, e sustentado por um orçamento de cerca de 200 milhões de dólares, Fuqua adota uma linguagem próxima do documentário — evocando o cinema de Julien Temple —, sobretudo nas sequências de espetáculo, onde a recriação dos concertos procura um realismo imersivo. A câmara aproxima-se do corpo em movimento, da energia coreográfica e da intensidade vocal, criando uma experiência sensorial que recria o impacto de Michael Jackson no auge da carreira.
Nesse sentido, o filme dialoga com uma tradição cinematográfica que vê na música um instrumento de transcendência. Em Paris, Texas (1984), Wim Wenders, autor de Buena Vista Social Club (1999), trabalhou com Ry Cooder numa abordagem que ecoa aqui: o rock’n’roll como força capaz de salvar vidas, revelando o limiar entre o tédio e o vazio existencial.
Poucos filmes recentes traduzem tão bem esse ideal quanto Michael (2026), ao apresentar a música não apenas como espetáculo, mas como necessidade vital — uma forma de sobrevivência emocional e afirmação identitária. A ascensão do jovem Michael, entre ensaios extenuantes e trabalho de estúdio contínuo, surge como um processo simultaneamente libertador e opressivo, onde o talento floresce sob pressão constante. A sua solidão, diluída pelo convívio com animais, permanece latente.
Ao evitar o sensacionalismo das polémicas finais e privilegiar a génese artística, Michael constrói uma narrativa que procura reencantar o público com a pureza inicial do mito, antes da sua fragmentação mediática. Trata-se de um retrato que equilibra admiração e inquietação, celebrando o génio enquanto insinua as fissuras que o acompanharam desde o início.
Combinando rigor visual, interpretações intensas e um apelo emocional calibrado, Michael inscreve-se numa vaga de biografias musicais que procuram mais do que revisitar carreiras: pretendem reativar o poder simbólico da música enquanto linguagem universal. É o melhor videoclipe da MTV que a própria MTV nunca fez. O cinema apropriou-se dessa lógica e levou-a mais longe. A montagem de Conrad Buff, Tom Cross, John Ottman e Harry Yoon garante ao fluxo narrativo um frenesim próximo do que Fuqua vem explorando desde The Replacement Killers (1998).




















