Possuidor de um dos maiores sustos que apanhei em sala na última década, “O Sucessor” é um regresso em força do realizador de “Custódia Partilhada”, filme que já tinha mostrado como o cineasta francês sabia lidar muito bem com os código do cinema de horror (especialmente filmes de cerco), tudo enfiado dentro de uma cápsula drama familiar e legal que, mais uma vez, servia de desconstrução de um patriarcado doente no seu sentido de posse.
Se em “Custódia Partilhada” o cineasta aventura-se no reino da violência (psicológica e física) após a separação de um casal e a luta pela custódia do filho, “O Sucessor” leva-nos a uma loja de horrores na cave de um homem falecido, cujo filho, de quem estava afastado, descobre. Uma descoberta que deixaria, certamente, Ulrich Seidl deliciado.
Como sempre, Legrand vai – desde o início – escondendo o jogo sobre o tipo de filme que temos pela frente. Por isso, quando vemos um estilista em ascensão no mercado francês, Ellias Barnès (Marc André Grodin), a viajar para o Canadá para lidar com a morte do pai, pensamos que vamos encontrar uma espécie de “Garden State” ou “Elizabethtown“, onde se confrontava o passado e as razões que ditaram o afastamento entre um pai e um filho, ou de uma personagem e uma região. Porém, numa guinada de 180º (uma reviravolta com o seu quê de trapalhona, mas que desculpamos pela intensidade de emoções vividas), o filme reformula-se e volta-se para o reino das perceções: o que o mundo apreende do mundo das aparências que certas pessoas criam de si, e o que elas realmente são, funcionando a cave da casa que vemos o protagonista “desmontar” como alegoria para a psique de um homem retorcido de quem o estilista fugiu, mas no qual se virá a tornar.
Por isso mesmo, “O Sucessor” do título tem múltiplos sentidos e não se restringe ao facto de Ellias Barnès se tornar o novo diretor artístico de uma famosa casa de moda francesa, mas também aos segredos obscuros que vai resguardar trancados na sua cave mental, tal qual o pai.




















