A mais famosa trupe das BDs da América Latina, a Turma da Mónica comemora 60 anos de vida e de sucesso com uma longa-metragem em live-action que pode garantir ao cinema brasileiro um dos seus maiores êxitos de bilheteira de 2019: a estrada audiovisual de desenhos animados do grupinho criado por Maurício de Sousa sempre foi pavimentada por forte venda de bilhetes.
Mas, agora, numa releitura cinematográfica em carne e osso, os heróis de dentes de leite ganham forma pelas mão do montador e cineasta Daniel Rezende. Ele levou aos ecrãs um enredo inspirado na graphic novel Laços, dos irmãos Lu e Vitor Cafaggi. O projeto adotou como estrelas o quarteto de crianças Giulia Benite (Mónica), Kevin Vechiatto (Cebolinha), Laura Rauseo (Magali) e (o achado) Gabriel Moreira (Cascão), que filmou equacionado pela (in)variável da lealdade. Singelo é a palavra que melhor define este mergulho de Rezende na argamassa da banda desenhada nacional.
Nomeado ao Oscar pela montagem de Cidade de Deus em 2004, o realizador rodou o aclamado Bingo, O Rei das Manhãs, em 2017, e a série de TV O Homem da sua Vida, entre curtas (Blackout é o melhor) e seriados como O Mecanismo. Ele foi ainda um dos montadores de A Árvore da Vida, de Terrence Malick, vencedor da Palma de Ouro de 2011.
Em Laços, no guião de Thiago Dottori, Mónica & Cia. saem de casa para encontrar o cãozinho Floquinho, que foi raptado da sua casinha, no lar da Sra. e do Sr. Cebola (Fafá Rennó e Paulo Vilhena, inspiradíssimo). O caminho é cheio de perigos, de água corrente (para o terror do Cascão) e da sinestesia das matas virgens, todos traduzidos pela fotografia de Azul Serra com cores realistas, sem o peso das tintas das BDs.
Prestes a receber um troféu honorário no 47º Festival de Gramado (16 a 24 de agosto), no Sul do Brasil, pelo conjunto de sua carreira, Maurício de Sousa faz no lúdico Turma da Mónica: Laços uma participação digna das intervenções hitchcockianas do saudoso Stan Lee (1922-2018) nas sagas da Marvel. A sua aparição no filmaço para crianças e graúdos que estreia nesta 27 de junho em solo brasileiro é rapidinha, só que inesquecível: um jornaleiro que vende sonhos para leitores de dentes de leite. São leitores como nós todos, daqui de Portugal ou de lá, que fomos alfabetizados pela sua arte, na forma de personagens seminais como o Louco, papel que garante a Rodrigo Santoro o melhor desempenho da sua carreira, numa pantomima à moda Marcel Marceau, com um palavreado surrealista.
Qual foi a maior dificuldade de construir o colorido de Laços em relação à paleta de cores do universo dos irmãos Lu e Vitor Cafaggi e do próprio Mauricio de Sousa, o criador da Mónica? Que cores guiaram o teu olhar?
Daniel Rezende: A Graphic Novel dos Caffagi já mostra uma “turminha” mais realista, e, para a adaptação do primeiro live–action, precisamos encontrar mais realismo, dentro do universo colorido e lúdico das personagens criados por Mauricio de Sousa. Fizemos um estudo de cores das bandas desenhadas da Turma da Mónica clássica e criamos uma paleta de cor para o filme. As quatro personagens principais ficaram com a cores puras, respeitando a visão do Mauricio. Todos os objetos, locações e cenários, tinham as cores rebaixadas para que as personagens ficassem sempre em primeiro plano. O filme foi dividido em 3 partes. A primeira (o bairro do Limoeiro) é mais colorida e lúdica. Nela, temos a sensação de estar a ver uma interpretação realista da banda-desenhada em movimento. A segunda (a floresta) tem o verde e o castanho como cores de fundo. A terceira (a casa do Homem do Saco) tem o castanho e o preto como fundo, fazendo com que as nossas personagens sempre tragam o colorido e a alegria, mesmo nas cenas de aventura e suspense.
Nomeado ao Oscar de melhor edição por Cidade de Deus, em 2004, Rezende é um dos maiores montadores do mundo na atualidade. Mesmo assim, confiou a edição de Laços a Marcelo Junqueira e Sabrina Wilkins. Como funciona a sua lógica de montagem de cenas em um processo colaborativo assim? O que é ver o seu material editado por outros talentos?
Primeiro, apesar de me ver apenas como um trabalhador apaixonado pelo que faço, muito obrigado pelo elogio. Desde que comecei a dirigir, sempre quis trabalhar com outros montadores. Acho o olhar fresco e crítico do montador, essencial para um filme. Poder ter alguém que possamos acrescentar e “cocriar” um filme não apenas melhora o trabalho, como é divertido e engradece o nosso ofício. Marcelo Junqueira e Sabrina Wilkins, além de serem muito talentosos, trouxeram ritmo, delicadeza, amor e elevaram o filme para um patamar que eu nunca chegaria sozinho. Acredito no cinema como uma arte coletiva. Um realizador é o capitão do navio e tem que mostrar o caminho, mas os seus coautores são fundamentais para navegá-lo. Marcelo e Sabrina tinham autonomia para fazer tudo o que quisessem com o material e depois seguimos juntos para chegar ao resultado final.

Lealdade parece-me ser a matéria central da aventura de Laços. Mas é um assunto que já estava em Bingo e na série com o ator Augusto Madeira que fez para a TV, decalcada de um original argentino de Juan José Campanella: El Hombre de su Vida. O que é a lealdade como matéria de dramaturgia?
Lealdade é tudo. Na amizade, na vida, na profissão, com outros seres humanos. Cinema é uma arte difícil, cara, complicada. E se não for feita em equipe, com comprometimento e lealdade, o resultado é comprometido. Gosto de projetos que reflitam e questionem o ser humano. Relações humanas são o que me atraem na dramaturgia. Laços de amizade na infância são essenciais para a formação dos seres humanos mais respeitosos para com o próximo e que construam um mundo melhor. Algo que está cada vez mais difícil nos dias de hoje. Acredito que é muito importante para a nossa cultura termos a chance de vermos na ecrã grande, personagens que foram sempre tão leais com o seu público, que atravessa gerações, de uma maneira fiel, respeitosa e carinhosa com o universo do Maurício. Trabalhamos muito para que os brasileiros e fãs dessa turminha, saíssem do cinema com a sensação gostosa de terem visto os seus “amigos de infância” de carne e osso, no ecrã, bem representados. Afinal de contas, são o maior ícone da nossa cultura pop.
O que vem agora, de novos horizontes, novos projetos, para o realizador que Daniel Rezende está se a tornar?
Acabei de filmar uma série chamada Ninguém tá Olhando, que criei para a Netflix, e que deve estrear até o final do ano. É uma comédia irónica que traz uma visão nova e divertida sobre anjos da guarda. Uma série que diverte e nos faz questionar a humanidade e os seus padrões pré-estabelecidos.

