Marco brasileiro nas bilheteiras, o thriller “Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia” (1977) volta a ser falado no planisfério cinéfilo, cerca de cinco décadas depois da sua estreia, ao ser citado em “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, que acaba de passar pelo Festival de Sydney, na Austrália, depois de receber quatro prémios em Cannes. Encontra-se um poster da longa-metragem de Hector Babenco (1946-2016) no novo filme do realizador de “O Som Ao Redor” (2012) e ele serve como bússola histórica – e cinéfila – para a contextualização do regime militar, no governo do general Ernesto Geisel, de 1974 a 1979. Em paralelo, a película de Babenco foi para a programação da Netflix, no seu país, num momento de circulação alta de títulos do Brasil no mais popular dos streamings. A trama é inspirada no livro (um “romance-reportagem”) homónimo de José Louzeiro (1932-2017), que completa 50 anos da sua chegada às livrarias em 1975. “Lucio Flávio, O Passageiro da Agonia” foi um dos maiores sucessos comerciais do audiovisual do Brasil de todos os tempos, com 5,4 milhões de ingressos vendidos.

Ano a ano, o Brasil arrisca injetar adrenalina nas suas artérias entupidas de sociologia, como se viu no flirt entre o thriller e a denúncia expresso em “Tropa de Elite” I e II (2007-2010) e em “Cidade de Deus”, que rendeu uma série recente, via O2, para a plataforma MAX. Existem experiências recentes do filão como “Amado” (2022), “A Divisão” (2019) e “Cano Serrado” (2018), mas Babenco alcançou a perfeição na sua imersão nos feitos do assaltante Lúcio Flávio Vilar Lyrio (1944-1975). Trata-se de um dos mais precisos ensaios da representação cinematográfica da violência sul-americana tanto a do crime organizado quanto a da corrupção policial. Aliás, o filme seguinte do cineasta, “Pixote – A Lei do Mais Fraco” (vencedor do Leopardo de Prata de Locarno em 1981), também foi inspirado em Louzeiro. Pontuado por um realismo seco, “Lúcio Flávio” garantiu a Reginaldo Faria o pémio de Melhor Ator no Festival de Taormina, em Itália, e no Festival de Gramado. É importante que se ressalte a vigorosa atuação de Ana Maria Magalhães como Janice, a paixão de Lúcio. Já Paulo César Pereio (1940-2024) rouba a cena como Moretti, tira de caráter duvidoso que acossa a personagem de Faria. Fotografado por Lauro Escorel, o filme une espetáculo e reflexão na sua observação da realidade policial brasileira com uma destreza técnica inesperada para os padrões do cinema latino da época. Raras vezes, até aquela data, uma troca de tiros foi retratada com tamanho rigor plástico de enquadramentos nas salas nacionais.
Nos seus minutos iniciais, vemos o achaque dos policias Bechara (Ivan Cândido) e 132 (Milton Gonçalves, perfeito em cena) a Dondinho (Grande Otelo), amigo de Lúcio, que é tratado como escória, num reflexo dos ranços racistas do país. Essa sequência joga especiarias sociológicas neste cozido amargo, entrando em segregações e exclusões adentro, aprofundando a percepção dos desajustes sociais do país. É menos uma historinha de romantização da marginalidade e mais um ensaio sobre os saldos da ditadura, chocado no ninho da cobra. Babenco foi ameaçado, teve a sua casa metralhada, mas nada disso lhe serviu de mordaça. O filme entrou em circuito com o referendo de melhor filme na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A tensa montagem é de Silvio Renoldi. A banda-sonora é de John Neschling.
Coroado com o lucro comercial, o filme de Babenco deu frutos. Dele saíram (o seminal) “República dos Assassinos” (1979), de Miguel Faria Jr. – inspirado em Aguinaldo Silva – e “Eu Matei Lúcio Flávio” (também de 1979), de Antônio Calmon. Mais do que gerar rebentos, “Lúcio Flávio” gerou História: a partir dele, a memória do banditismo social brasileiro não se limitou aos cangaceiros do nordestern e ganhou a selva urbana.

