É provável que surjam por aí conversas sobre os tiques estilísticos de Paolo Sorrentino – afinal, o processo crítico pode ser tão repetitivo quanto o objeto que critica. Mas esse debate não interessa tanto. O realizador italiano criou um jogo com regras tão características e estabelecidas que narra-las e compará-las, embora seja trabalho teórico do crítico, transforma-se numa banalidade entediante. Ou a pessoa joga ou vai fazer outra coisa que não assistir às suas panorâmicas e planos fixos estilizados caindo aqui e ali como as gotas da chuva com a qual “martirizou” (a palavra pode ser essa) o presidente de Portugal numa sequência em “slow motion” com “techno” agressivo, tempestade e o olhar de Jep Gambardella (não há como se livrar!) de Toni Servillo a espreitar o espelho da sua iminente decrepitude.

Desta vez Sorrentino fixou-se num tema tão escorregadio como a sua técnica: o que é a verdade. O seu protagonista não é só o presidente italiano, mas um jurista que escreveu mais de 2 mil páginas sobre Direito Penal. Tanta palavra por caminhos temerários só pôde dar em engesso: uma vida cristalizada na tentativa de fixação – e a sua alcunha nos vários círculos, para o seu espanto, é “Betão Armado”. Não dá para meter as câmaras a fazer piruetas quando queres falar de alguém que já quase “não respira” – metáfora do próprio filme: o protagonista espreita o fim do seu mandato – e, de certa forma, a do seu epitáfio, mais imaginário e neurótico do que real (embora Sorrentino parece sempre acreditar nisto). Aliás, dá para dizer que com apenas 55 anos o cineasta parece ter feito uma filmografia inteira para se preparar para aquilo que aterroriza todos nós: o dia de encarar que já não há saídas possíveis. Mas aqui esse momento ainda não chegou: o líder do Executivo já “só tem um pulmão” – mas o problema é o outro tipo de respiração: como encontrar a leveza – pior, como encontrá-la depois de passar uma vida a saber que a esposa que tanto amava tinha um amante. 

Dos momentos “sorrentinianos” há a do solitário astronauta que persegue a sua própria lágrima no vácuo – solidão extrema, mas livre da gravidade de tudo. A obsessão pela verdade aqui é mais do que obstinação jurídica: é a constatação de que a vida é feita de outra matéria (“a quem pertencem os nossos dias”, pergunta-se pelo filme) – é de que a leveza pode sempre espreitar por aí – seja na figura de uma exuberante embaixatriz da Lituânia ou nas rimas inesperadas de um “rapper” a falar de “dealers”, prisões e “bitches” – estas histórias que divertem os “garotos de hoje em dia”. 

Se a verdade é um tema, a morte é outro: parte do enredo político gira em torno da assinatura (ou não) da legalização da eutanásia (aqui, sim, caberia o “presidente português” – pelo menos o já retirado Marcelo Rebelo de Sousa). Porque eutanásia é a aceitação da morte não natural – aqui levada a outros níveis: quando se está morto por dentro vale a pena continuar a viver? Tirando uns sentimentalismos a esbarrarem perigosamente na sacarina e não se importando em jogar novamente com as mesmas cartas, dá para ficar sem abandonar a sala. Afinal há tanto cinema absolutamente banal por aí.

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Pontuação Geral
Roni Nunes
la-grazia-um-cineasta-e-um-presidente-a-procura-de-arAs cartas do jogo de Sorrentino não mudam muito. O quanto isso é um problema decide cada jogador