Persona Non Grata: geopolíticas da exclusão numa ponte Brasil x França

(Fotos: Divulgação)

Nos seus momentos finais no Brasil, o Festival Varilux, a maior maratona do audiovisual francês nas Américas, viu “Persona Non Grata”, de Roschdy Zem, tornar-se um dos hits de sua seleção de inéditos, pautado numa trama importada de um culto do cinema de São Paulo. A sua narrativa é importada de “O Invasor”, um marco do cinema brasileiro na representação das contradições económicas da periferia.

Lançado em 2001, o thriller, laureado em Sundance pela alta voltagem da sua narrativa, partiu de uma premissa do escritor Marçal Aquino, posteriormente transformada em livro, sobre um assassino de aluguer que se instala na empresa dos seus contratantes. No filme brasileiro, dirigido por Beto Brant, o matador Anísio (vivido pelo cantor Paulo Miklos, da banda Titãs) era contratado pelos empreiteiros Giba (Alexandre Borges) e Ivan (Marco Ricca) para matar o sócio deles. Só que, após o serviço ser concluído, Anísio vai procurar os seus “patrões” disposto a ficar perto, não apenas da empresa dele como da sua vida social, como um parasita. A longa-metragem de Zem retrabalha a premissa do roteiro escrito por Marçal, Brant e Renato Ciasca transpondo das “quebradas” (gíra rapper para espaços periféricos) de São Paulo para a França contemporânea.

No europeu, os construtores José Montero (Nicolas Duvauchelle) e Maxime Charasse (Raphaël Personnaz) são manipulados por Moïse (Zem) depois que este assassina um colega de trabalho deles. Quem trabalhou essa transposição geográfica foi o argumentista Olivier Gorce, que também escreveu o aclamado “Em Guerra” (2018). Nesta noite, às 18h (21h em Portugal, o Varilux promoveu uma conversa entre Gorce e Renato Ciasca nas URLs: https://www.youtube.com/user/variluxcinefrances  e https://pt-br.facebook.com/variluxcinefrances.

Na entrevista a seguir, Gorce, parceiro de Zem em outros projetos, conta ao C7nema como foi escrever esse remake preservando a essência moral da longa de Brant, Marçal e Ciasca.

O que mais fascinou você no guião brasileiro de Marçal Aquino, Renato Ciasca e Beto Brant, em “O Invasor”, e qual foi a maior dificuldade em transpor este universo da periferia de São Paulo para a realidade francesa?

O que atraiu Roschdy Zem e a mim foi, antes de tudo, a história de amizade entre estes dois homens que acreditam serem capazes de “usar os serviços” de um assassino para resolver um problema, e sair dessa situação com impunidade, como se ele fosse um prestador de serviços, um funcionário de empreitada. Atrai o facto de como esta má decisão os sobrecarrega e faz com que se despedacem uns aos outros. Gostámos, imediatamente, da ideia de que, no início, “tudo vai bem”, o problema parece resolvido, mas é aí que o problema começa. É claro que o contexto francês e o brasileiro não é o mesmo, não podíamos trabalhar com a mesma noção de corrupção. Não estou a dizer que não há corrupção nem França, porém é mais larval, disfarçada de legalidade. E há o facto de que partimos de dois sócios da indústria da construção civil que fazem uma escolha estratégica de negócios, mas de forma alguma vivem como criminosos. A fim de “adaptar” São Paulo para a realidade francesa, a gente baseou-se naqueles programas de construção que expulsam a população precária do centro da cidade, nos contrastes urbanos ligados à gentrificação na região de Montpellier, onde as pessoas se deslocam da luxuosa orla marítima para as favelas.

Como você situa Moïse entre o heroísmo e a vilania? Esta personagem encarna a realidade do submundo da França de hoje?

Ele não é nem heroico, nem perverso, nem bom: ele encarna a consciência de um povo que os dois empreiteiros estão trabalhando para fazer desaparecer, assim como eles dois estão trabalhando para fazer desaparecer o seu próprio delito do passado. Mas o povo resiste. E por essa resistência, Moïse vê na fragilidade desses dois empresários a oportunidade de ocupar um lugar do outro lado do Poder, tornando-se um deles. Ele é um oportunista: se este “novo mundo”, que se abre à sua frente, é tão capaz do pior, por que ele não poderia ser parte dessa sociedade? Mas o verdadeiro demónio desta trama, parece ser a ambição que leva os dois empreiteiros a querer cada vez mais. Como diz a citação de Georges Bernanos no cartaz do filme: “O diabo é o amigo que nunca fica até o fim”.

Como foi a parceria com Roschdy Zem e o desafio de criar diálogos para um ator como ele, sempre muito eficaz em trabalhos de introspecção, pautados pelo silêncio?

Em “Omar m’a tuer” e “Chocolate”, que já tínhamos escrito juntos, Roschdy não atuava. Desta vez, o seu desejo de desempenhar o papel de Anisio (Moïse para nós) foi a força motriz por trás do projeto de adaptação. Nos roteiros anteriores, Roschdy Zem trouxe para todas as personagens, especialmente nos diálogos, uma precisão alimentada por sua experiência e seu talento como ator. Esta era outra oportunidade, pelo menos para mim, de saber que Anísio/ Moïse seria ele. O seu “delírio de gradeza” teve que se encaixar no realismo dos outros protagonistas, provocando uma mudança, com humor e lirismo, sem ser totalmente exógeno ao filme. É uma mudança de equilíbrio inteligente.

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