Quatro das maiores receitas de bilheteira de Hollywood em 2025 estão ligadas a filmes de terror (The Conjuring: Last Rites, Sinners, Final Destination: Bloodlines e Weapons), com o envolvimento de vozes autorais (James Wan, Ryan Coogler, Danny Boyle, Marco Dutra) em variantes do filão que se destacaram em diferentes ecrãs do planisfério cinéfilo. Não surpreende, por isso, que na reta final do ano — em outubro, o Mês das Bruxas — a Blumhouse, de Jason Blum, verdadeira máquina de assombrações, regresse às salas com um novo (ou quase novo) exercício de terror, Black Phone 2, perfeitamente consciente de estar a fazer um bom negócio. Lançado em 2021, sob a névoa da pandemia, o primeiro filme — hoje disponível em plataformas como a Prime Video — custou pouco (cerca de US$ 16 milhões) e rendeu uma fortuna (US$ 161 milhões). Basta o slogan promocional da Parte Dois para arrepiar: “Morto é só uma palavra”. A franquia assenta na prosa de Joe Hill (filho de Stephen King) e é sustentada pela elegância de um ator no auge das suas potências criativas: Ethan Green Hawke. Ele é a alma deste estudo aterrorizante (daqueles de cravar as unhas nas cadeiras do cinema) sobre o desamparo. A premissa recorda M (1931), de Fritz Lang, apesar do clima (aparente) à Stranger Things. Cabe a Hawke encarnar o infanticida que assombra os subúrbios americanos, na Carolina do Norte, criando um dos vilões mais temíveis — ainda que mais humanizados — de uma era em que tem sido cada vez mais difícil para a indústria cinematográfica criar personagens duradouros para lá dos créditos finais.
A forma como ele actua com máscaras, num estudo da plasticidade facial entre o sombrio e a fragilidade aparente, remete à génese da tragédia. Na continuação — que Blum produziu por cerca de US$ 30 milhões —, o trabalho de subtileza do ator refina-se ainda mais, numa alquimia plena com o realizador Scott Derrickson. Há vinte anos, quando Saw incendiava o imaginário do gore, Derrickson trouxe o terror ao terreno do realismo com o marcante O Exorcismo de Emily Rose (2005), e manteve o registo em Sinister (2012) e Deliver Us from Evil (2014), até se aventurar nos super-heróis com Doutor Estranho (2016), da Marvel. De regresso ao solo onde é perito, assina aqui o seu melhor filme e leva Hawke ao limite. E Hawke tem muito para dar.
Transportado para o Velho Oeste nos sets de Strange Way of Life (2023), um western LGBTQIA+ de Pedro Almodóvar, Hawke soma 105 produções no seu currículo como ator, desde a sua estreia, em 1985, em Explorers (em português, Viagem ao Mundo dos Sonhos). Indicado a quatro Óscares, como ator secundário e argumentista, estrelou títulos de marcasautorais como Alfonso Cuarón, Rebecca Miller, Hirokazu Kore-eda e Abel Ferrara. Antoine Fuqua (de Training Day) e Richard Linklater têm sempre um papel para ele. Em fevereiro, ambos passaram pela Berlinale, em competição pelo Urso de Ouro com Blue Moon. Não bastasse isso, Ethan escreveu livro (Código de um Cavaleiro) e BD (Indeh – Uma História das Guerras Apache).
Dessa miscelânea de projetos e boas interpretações, Hawke leva a Black Phone 2 a habilidade de garantir um abismo afetivo a personagens que parecem apenas “cascas”. Por trás do Grabber, o criminoso que rapta crianças, aprisiona-as numa cave e as conduz até à morte numa gincana de portas, há uma série de sentimentos: da insegurança ao descontrolo. E o astro de 54 anos potencia-os apenas usando uma máscara, sob a luz sem saturação (pontualmente aberta a um chiaroscuro) do diretor de fotografia Pär M. Ekberg. O que amplia as camadas do monstro é o facto de a vítima atual, Finney (Mason Thames), conseguir comunicar com mortos no seu claustro — um toque sobrenatural que desafia a secura realista de Derrickson… e os nossos nervos, cada um deles.
Na trama de Black Phone 2, estamos em 1982, quatro anos após os eventos do primeiro filme, e Finney Blake tenta lidar com o trauma do seu rapto e assassinato pelo vilão. Entretanto, a sua irmã paranormal, Gwen, começa a ter visões aterrorizantes de crianças mutiladas e pesadelos com um telefone a tocar. A partir desta premissa, Derrickson fala de aliança (fraterna) sem medo dos jumps scares. Alcança uma mescla equilibrada entre crónica das perversidades de uma sociedade capitalista e aventura de amadurecimento, amparado na montagem de Louise Ford.




















