Pátria: “catarse e terapia” para o País Basco

"Pátria" relata 30 anos da vida no País Basco sob o terrorismo, através dos olhos de duas famílias divididas pelo conflito violento

No meio de um temporal, um jovem num carro saca uma arma. Bem perto, Txato (José Ramón Soroiz), empresário do ramo dos transportes de uma pequena cidade de Guipúzcoa, toma o café e despede-se de  Bittori (Elena Irureta), a sua esposa. A câmara fica com ela e, alguns segundos depois, fora do campo, são ouvidos três tiros. A mulher vai até a janela e vê o corpo do marido caído na calçada, saindo tresloucada porta afora…

Esta primeira cena de “Pátria“, primeira série produzida pela HBO Espanha, remete-nos a uma situação no passado, até porque a série tem o seu presente no momento em que a ETA abandonou o conflito armado após 52 anos de existência. Nesse período de atividade, contam-se 864 assassinatos e 709 detidos em prisões, mas é a morte de Txato em particular que funciona como o detonador do enredo deste projeto, já que após ter abandonado a pequena localidade depois da morte do marido, Bittori regressa novamente ao local “em tempos de paz” para descobrir quem foi efetivamente o assassino do marido. 

Baseado no livro de Fernando Aramburu, que além de ser adaptado a série também teve direito a uma versão em banda-desenhada, a chegada de “Pátria” é um evento maior no País Basco e em toda a Espanha. Por toda a cidade de San Sebastián, durante a realização do seu festival de cinema, onde a série teve a sua estreia mundial, todos falavam dela: “Fomos espreitar na zona velha da cidade o que podíamos durante as filmagens de ‘Pátria’. No fundo, fomos rever coisas que assistimos em crianças e nos marcaram“, explicou-nos Jone, habitante de Donostia, nome da cidade em basco/euskera.

Adaptar a novela

Não vou dizer que era uma novela fácil de adaptar, mas tinha muitos elementos que facilitam a sua adaptação a uma série de TV. O mais complicado era manter os saltos temporais, que para mim eram também essenciais de manter na versão televisiva. Creio que o tempo vai esculpindo as personagens à medida que passa, vai modificando-os. Era muito importante essa transcrição da força do tempo.”, explicou ao C7nema o argumentista e showrunner de “Pátria”, Aitor Gabilondo, que comprou os direitos de adaptação do livro de  Fernando Aramburu, ainda antes dele ser lançado. “A princípio nem sabia se o livro ia ser sucedido, nem se conseguiria convencer alguém a adaptá-lo. Progressivamente transformou-se num fenómeno de vendas, depois num fenómeno social e depois em algo que já nem sei como chamá-lo. (…) Emocionalmente, esta história é reconhecível para todos. Não apenas a história, mas os lugares, as personagens, as vozes. Todos conhecemos Mirens, Gorkas, Joxe Mari e Bittoris.

Sensibilidade e bom senso…

Tudo é reconhecível, mas tínhamos a responsabilidade de ter o tacto e sensibilidade para contar a história com precisão”, explica-nos Aitor Gabilongo, que ao lado das duas protagonistas da série, Elena Irureta e Ane Gabarain, frisam que depois de tantos anos ainda há muitas feridas que continuam abertas: “Ainda estamos todos a digerir esses tempos. Estamos no século XXI, está tudo muito mais rápido, mas quem sabe ainda não passou o tempo suficiente. Espero que esta seja uma boa forma artística para ajudar nessa passagem.” 

Reconhecendo o poder do tema e o diálogo que a série pode gerar, o showrunner espera que o seu projeto possa ter “um efeito catártico” e até “terapêutico” no País Basco: “São personagens de ficção reconhecíveis que te fazem questões incómodas. Eu acho um milagre que nesta altura da vida uma simples série de televisão gere este burburinho e questionamento. […] há muitas histórias ainda por contar, de um lado e outro do conflito”. 

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