Geologia da moral, “Topakk” ( “Triggered” na sua titulação internacional) faz jus à máxima poética da educação pela pedra: as suas personagens são rochas, algumas lascadas, outra polidas, algumas escorregadias – todas absolutamente banhadas de sangue. Montanha em forma de gente, escalado por traumas e fantasmas, o Sargento Miguel, o protagonista, tem no peito a moléstia do testemunho. Viu o seu exército ser exterminado no sul das Filipinas – a terra onde a longa-metragem de Richard V. Somes se passa – pelas mãos de grupos extremistas. Tal extermínio ocupa o preâmbulo de uma narrativa mais próxima da Hong Kong de “Hard Boiled” e da Coreia do Sul de “Time to Hunt” do que da metafísica de Lav Diaz ou do existencialismo de vínculos sociológicos de Brillante Mendoza.

É um Rambo tropical quente (e húmido), parte na floresta, parte numa cidade sem lei. Vez por outra, os demônios de Miguel saem do seu peito e energizam o seu dedo ao gatilho ou a força dos seus socos. Sempre há o que religiões de matriz africana chamam de “quizila”, ou seja, a ação de espíritos que vetorizam gestos. O espírito aqui é o da memória. A memória de um guerreiro. A memória de uma nação cindida pelo ranço do colonialismo, que se renovou na forma do tráfico.

Aplaudido três vezes durante sua primeira projeção pública no Festival de Locarno, onde foi projetado fora de concurso, “Tropakk” ritualiza todos os códigos do cinema de ação classe B (é Jean-Claude Van Damme, aquele Van Damme dos tempos da Cannon Films, na veia) na forma de um banho de descarrego das vicissitudes históricas da população filipina. É geológico, ao manter ao longo da sua precisa duração (113 minutos), o empenho na analogia entre soldados e rochas. Mas é com essa analogia que ele perfura o inconsciente do protagonista, durante as execuções que realiza, de metralhadora na mão, até o apoteótico final. A sua montagem sinuosa, com picos de pressão, encobre precariedades orçamentárias nos efeitos visuais e nos efeitos especiais, dando a ambos um exotismo. É um cinema asiático que flerta com John Woo e também conversa com a cinemática aeróbica de “John Wick”. A sua presença em Locarno dá asas ao projeto curatorial de Giona A. Nazzaro, o diretor artístico do evento, de retratar o uso menos convencional de códigos do “filme de género”, do caso, os filmes de ação.

Diretor de arte no cinema e realizador de séries, Somes tem no currículo o precioso “We Will Not Die Tonight” (2018), sobre as aventuras de uma mulher dupla de cinema. O seu traço autoral se detém na recorrência de retratar heróis e heroínas diante da mecânica de gincana dos “12 Trabalhos de Hércules”, ou seja, ele utiliza uma herança do épico grego de testar a estamina das personagens em peripécias sem fim. Há uma sucessão de perigos no percurso que Miguel completa a fim de exorcizar os seus diabos em “Topakk”.

No primeiro ato da trama, um ano passou desde o massacre da horda de tal sargento e ele, depois de ter sido dispensado do exército, tornou-se segurança num armazém remoto. Lá, ele vai enfrentas sindicatos de droga e esquadrões da morte da polícia corrupta a fim de ajudar uma mulher inocente (e muito hábil nas artes marciais) a escapar. O que se passa a partir do momento em que ele percebe a ferocidade do local é uma reação (em cadeia) de um herói fraturado contra malfeitores de diversas ordens. As pedras rolam. E pedras que rolam não criam limo, incluindo as pedras do género ação, que se renova com esse espetáculo plástico. 

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
topakk-o-rambo-das-filipinas O espírito aqui é o da memória. A memória de um guerreiro. A memória de uma nação cindida pelo ranço do colonialismo, que se renovou na forma do tráfico.