De uma ressonância magnética a uma road trip: o mergulho interior de Janaína Marques

Vencedor do prémio Tagesspiegel Readers Jury Award do Festival de Berlim, atribuído pelos leitores do jornal aos filmes da secção Fórum, Fiz um Foguete Imaginando Que Você Vinha (2026) marca a primeira incursão de Janaína Marques nas longas-metragens, realizadora que já se tinha destacado com a curta Los Minutos, Las Horas (2009).

Com interpretações centrais de Verônica Cavalcanti e Luciana Souza, o filme apresenta-nos Rosa, chamada a evocar uma lembrança durante uma ressonância magnética. A partir desse impulso, inicia-se uma viagem pelo seu subconsciente, revisitando o passado e reconstruindo um episódio que nunca viveu: uma road trip com a mãe, Dalva.

Janaína Marques

“A ideia nasceu a partir de uma ressonância magnética e de uma road trip”, explicou Janaína ao C7nema na Berlinale. “Surgiu pelas mãos de dois argumentistas, Taís Monteiro e Pedro Cândido. Em 2017 conheci a história num laboratório de argumento. Na versão inicial, a protagonista era a Dalva e era uma narrativa completamente realista, naturalista”.

No ano seguinte, o argumento chegou às mãos do produtor Maurício Macêdo, que convidou a realizadora a assumir a direção, iniciando-se uma reformulação da estrutura. “Achei que seria mais desafiante e mais rico, em termos de Cinema, se a viagem fosse um código mental. Ou seja, mais livre. A partir daí juntaram-se dois novos argumentistas, Xenia Rivery e Pablo Arellano. Reescrevemos o argumento e nasceu a versão filmada: uma jornada interior vivida por Rosa”.

Filmado com um orçamento de 250 mil dólares, em quatro semanas, em múltiplas localizações e com todos os constrangimentos da pandemia, Fiz um Foguete Imaginando Que Você Vinha tem uma abordagem concreta à representação, com Janaína a afirmar que nunca procurou atuações excessivamente dramáticas. Inspirando-se em Robert Bresson, ela prefere a sensorialidade à explicação psicológica: “Foi um filme de luz num período muito escuro”, sublinha.

Carregando ainda uma mensagem clara sobre intolerância e liberdade feminina, propondo uma reflexão sobre o direito da mulher a viver plenamente, Janaína diz que o dispositivo do “código mental” permitiu ousar, romper limites e afirmar que a mulher pode ser o que quiser.

Já Verônica Cavalcanti – que admite que as questões femininas que Janaína trouxe para o filme atravessam-na profundamente–,  recorda que o trabalho com a cineasta foi profundamente colaborativo, envolvendo muitas conversas sobre a história, as personagens e o que tudo isso representava para o feminino. “A minha personagem é uma mulher comum, profundamente incomodada com a sua vida: o casamento, a família, o trauma com a mãe. Esse desconforto torna-se orgânico, ao ponto de ela procurar ajuda médica. É aí que entra na ressonância e o filme passa a acontecer na mente dela (…) Senti que precisava fazer essa Rosa”, concluiu Verônica.

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