Com créditos de produção em Ballad of a Small Player (2025), Orphan (2025), Touch (2024), Club Zero (2023) e Sisu (2022), o britânico Mike Goodridge ocupa este ano uma das cadeiras do júri da Competição Oficial do Festival de San Sebastián, presidido pelo cineasta norte-americano Ira Sachs. Ao lado deles estão Alice Braga, Genki Kawamura, Catherine Paillé, Patricia López Arnaiz e Bill Skarsgård. Fundador da Good Chaos, antigo responsável pela Protagonist Pictures e, antes disso, jornalista e crítico, Goodridge conhece diferentes lados da circulação de um filme. Numa conversa com o C7nema, falou da autoria do produtor, da crise do financiamento e da necessidade de o cinema continuar a oferecer uma experiência capaz de disputar espectadores com as plataformas.
Existe uma possível autoralidade no trabalho de um produtor, apesar da centralidade dada ao realizador pela política dos autores associada aos Cahiers du Cinéma?
Sem dúvida. Os festivais europeus criaram uma certa fetichização do realizador como único criador. O produtor acaba por não ser considerado uma pessoa criativa, e isso simplesmente não é verdade. A identidade de um filme, que é o que procuramos, não termina na rodagem. O argumento tem de funcionar, o casting é crucial e a montagem pode mudar tudo. Já vi grandes filmes escondidos dentro de uma montagem que tomou o caminho errado.
O que está a produzir neste momento?
Neste momento, estou com três filmes em produção. Um deles é com Kornél Mundruczó, em língua georgiana, sobre o jovem Josef Stalin em Tbilisi, visto através do seu amigo Kamo. Chama-se The Revolution According to Kamo e estamos no terceiro dia de filmagem. Também estamos a filmar Chairman, em Londres, com um realizador estreante chamado Edem Kelman, sobre a comunidade de imigrantes africanos. Estamos há duas semanas em filmagens. E há ainda Child’s Play, que está a ser filmado no Canadá e é baseado num conto de Alice Munro. Portanto, temos três filmes a serem filmados neste momento.
O que cria unidade numa filmografia tão internacional como a sua, na qual se destacam sucessos como a franquia Sisu ?
É o meu gosto. Sou britânico e vivo em Londres, mas quero fazer filmes no mundo inteiro. Cresci a aprender sobre o mundo através do cinema. Interesso-me pelas histórias e por quem as conta.
Como avalia o cinema britânico contemporâneo?
Temos uma indústria criativa subalimentada. Somos muito bons no cinema de época e no realismo social, mas perdemos um pouco a capacidade de sermos audaciosos, pessoais, quase extravagantes.
O que procura sentir quando vê um filme?
Quero ser afetado de alguma maneira. Gosto de uma reação visceral. Não preciso necessariamente de chorar, mas quero sentir o poder de um filme no estômago. Foi o que senti com Orphan (2025).
Qual é hoje a principal responsabilidade de um produtor?
É muito difícil conseguir fazer filmes. Temos de concentrar todos numa ideia: isto vai ser cinema e haverá pessoas que irão vê-lo. Talvez não resulte, mas o objetivo continua a ser criar arte cinematográfica capaz de chegar ao público.
As plataformas tornaram esse trabalho mais difícil?
As plataformas de streaming mudaram irrevogavelmente os modelos de financiamento e distribuição. Antes, um filme passava pelo cinema, vídeo, televisão paga e televisão aberta. Existia uma longa cadeia de receitas. Agora pode estrear numa plataforma e terminar ali. Financiar cinema tornou-se muito mais difícil.

