Poucos meses depois de estrear em Veneza – e chegar à noite dos Óscares – com “Pobres Criaturas”, o grego Yorgos Lanthimos “aterra” em Cannes com um novo projeto, um verdadeiro 3 em 1 já que coloca um núcleo duro de atores (Jesse Plemons, Emma Stone, Willem Dafoe, etc) a representarem papéis diferentes numa “fábula” de três contos sem ligação que, segundo o próprio, mostram o estado do mundo atual a partir de retratos de uma sociedade americana contemporânea abastada.
São três “curtas” que navegam estilisticamente mais próximas dos primeiros filmes de Lanthimos, e menos dos mais recentes (A Favorita/Pobres Criaturas), mais barrocos, e que abordam temas como paranoia, controle e dependência emocional de forma retorcida, sem medo de fazer chegar ao ecrã aquilo que muitos chamariam de perversões, sangue a jorrar, esoterismos e muitos fetiches.
Coescrito pelo seu colaborador habitual, Efthymis Filippou, e filmado enquanto esperava que os efeitos visuais de “Pobres Criaturas” tivessem concluídos, o primeiro “conto” que nos chega é o mais forte e segue um homem (Plemons) cuja vida é controlada pelo patrão, Raymond (Dafoe), incluindo o seu casamento e as decisões que – teoricamente- tomou livremente com a esposa (Hong Chau). Apaparicado pelo patrão, que não se escusa a lhe dar presentes valiosos, como uma raquete partida de John McEnroe ou o capacete chamuscado de Ayrton Senna, a personagem de Plemons começa a ver as coisas mudarem quando mete reticências num pedido de Raymond.
Surrealidade atrás de surrealidade, como se “Short Cuts”” de Robert Altman fosse entregue a Lanthimos, ou então estivéssemos perante um primo de “Crash” de David Cronenberg, todos os contos provocam permanentemente uma sensação de estranheza e começam a ser progressivamente mais negros, mantendo o seu humor em terrenos do macabro e bizarro, que inevitavelmente trazem sorrisos perplexos ao espectador. Mas tal como os outros dois contos que se seguem, “Kinds of Kindness” (Tipos de gentilezas, na sua forma literal) nunca vai além de um valor episódico que no meio da obra do cineasta grego se perde na multidão. Mais: há um sentimento cada vez maior de irrealidade e alienação, o que por si só não seria problemático (é uma ficção, a liberdade é total) se não nos fizesse desprender emocionalmente o espectador das figuras em cena, as quais cada vez mais olhamos de forma distante e não de forma intrigada.
O segundo conto, sobre um homem paranóico que não acredita que a sua esposa que regressa, depois de estar desaparecida, mantém a forma, estilo e progressão narrativa clássica, ainda que as excentricidades escondam de certa maneira a sua forma previsível de A para B e depois C. O mesmo acontece com o terceiro conto, talvez o mais arrojado, sobre uma mulher que se entrega aos desígnios a um guru que a requisita para localizar um indivíduo com poderes especiais.
No final e como um todo, “Kinds of Kindness” acaba por ser um trabalho curioso a nível individual e coletivo, mas nunca passa disso, parecendo mais uma “mão cheia de nada”. Se o seu objetivo era choque ou apenas chamar a atenção para qualquer tipo de reflexão, a missão é falhada. Vemos tudo como uma fantasia negra, mas nunca pensamos realmente nele além do básico interesse mórbido como quem olha para um acidente de viação.




















