Numa ténue interseção entre o misticismo e a antropologia, o trabalho investigativo do casal Warren — a sensitiva Lorraine Rita (1927-2019) e o demonologista Edward Miney (1926-2006) — foi crucial para que fenómenos ocultos ganhassem legitimidade através de uma abordagem que, não sendo considerada ciência, gravita em torno de instâncias comprobatórias próximas de metodologias académicas. Há 12 anos, as suas aventuras chegaram ao grande ecrã, em formato de dramaturgia assombrada, pelas mãos do cineasta australiano nascido na Malásia James Wan, com a criação da franquia The Conjuring.
Com esta saga, o realizador de veia autoral desafia uma máxima — a mais bela — recentemente recuperada por uma minissérie brasileira da HBO Max (Máscaras de Oxigénio (Não) Cairão Automaticamente): “Um filme de terror não tem heróis; tem sobreviventes.” No entanto, na obra de Wan, o heroísmo é ativo e operante: os Warren fazem jus à tradição heroica das narrativas ficcionais primordiais, sacrificando-se em prol do outro.
Em geral, no horror, o protagonismo cabe aos “monstros”. Drácula não é o centro apenas pela sua fome de sangue, mas porque, a cada nova trama, percorre uma jornada transformadora que o confronta com as suas fragilidades. O mesmo se aplica a franquias como Sexta-Feira 13: apesar de as vítimas ocuparem o foco imediato, é Jason, com as suas estratégias de massacre, quem constitui o núcleo dramatúrgico. Esta tendência nasce do facto de o terror ser reflexo de crises simbólicas — frequentemente económicas — nas quais a miséria gera dualidades de caráter e, com elas, o perigo se instala, quase sempre no limiar da morte.
Wan explorou essa linha em Saw (2004), fenómeno que o consagrou, ao colocar o vingador Jigsaw como núcleo dramático de cada matança. Retomou essa lógica em Malignant (2021), lançado em plena pandemia. Mas em The Conjuring preferiu trilhar o caminho do altruísmo, apoiando-se nos feitos reais de Lorraine e Ed e numa construção quase melodramática ancorada nas interpretações seguras de Vera Farmiga e Patrick Wilson, o seu ator-fetiche.
Realizou com grande eficácia os dois primeiros capítulos da saga: o de 2013, com um orçamento de 20 milhões de dólares, arrecadou cerca de 320 milhões; o de 2016, apontado por muitos como a maior obra-prima do terror no século XXI, custou 40 milhões e gerou 322 milhões em bilheteira. Para além do sucesso, introduziu duas figuras que ganharam spin-offs rentáveis: a boneca amaldiçoada Annabelle e a entidade maléfica The Nun. Um terceiro filme, lançado durante a pandemia e realizado por Michael Chaves sob produção de Wan, custou 39 milhões e rendeu 206 milhões. É o próprio Chaves quem assina agora The Conjuring: Last Rites (em Portugal, Extrema-Unção; no Brasil, Invocação do Mal 4: O Último Ritual).
Chamado também para Hollywood mainstream com Aquaman (2018), Wan nunca abandonou o gosto por aterrorizar através dos jump scares — recurso frequentemente desvalorizado, mas que ele demonstrou continuar eficaz enquanto dispositivo catártico. Em The Conjuring, Lorraine e Ed, interpretados com plena química por Farmiga e Wilson, atravessam todo o tipo de provações, munidos apenas da paranormalidade e da fé como armas.
Neste que promete ser o derradeiro capítulo da saga (pelo menos para já), encontramos os Warren reformados, preocupados com o casamento da filha, Judy (Mia Tomlinson), que herdou os dons mediúnicos, com o ex-polícia Tony (Ben Hardy, de Bohemian Rhapsody). A tranquilidade desejada é interrompida pelo regresso de espíritos zombeteiros — e perigosíssimos — presos num espelho de uma antiga casa. Trata-se de uma missão inconclusa do passado, que volta para assombrar, num enredo avesso a moralismos e construído para fazer o público estremecer na poltrona. A montagem sinuosa dá palco às interpretações vigorosas de Farmiga e Wilson, enquanto a fotografia de Eli Born aposta numa iluminação bruxuleante, evocando o chiaroscuro barroco e traduzindo plasticamente a inquietude dos justiceiros perante o terror das suas próprias almas.




















