Farewell Amor (2020) é a estreia de Ekwa Msangi como argumentista e realizadora de longas-metragens. Ela é da Tanzânia, reside nos Estados Unidos e tem cidadania norte-americana. O filme é a expansão da sua curta-metragem Farewell Amor, realizada em 2016.
Msangi opta por contar Farewell Amor do ponto de vista das três personagens protagonistas, respetivamente mãe, filha e pai: Esther (Zainab Jah); Sílvia, uma adolescente de 16 anos (atriz Jayme Lawson); e Walter (Ntare Guma Mbaho Mwine). As duas mulheres desembarcam em Nova Iorque para viverem com Walter.
Walter é taxista a tempo inteiro no bairro do Brooklyn, onde vive exilado há 17 anos. Migrou na esperança de oferecer uma vida melhor à esposa e à filha que tinham ficado em África. Durante todos esses anos falaram apenas por telefone, nunca se viram e aguardavam a documentação legal para que a família pudesse se reunir. Nesse período, muitas fissuras se abriram entre eles.
A primeira imagem do filme é a cena do reencontro familiar — um reencontro sem emoção e quase constrangedor para todos, que acontece num lugar de passagem: no aeroporto JFK. O reencontro de Esther e Sílvia com Walter deveria ser motivo de celebração, mas a realidade vai mostrar-lhes que será preciso um esforço das três partes para a reconstrução familiar. Não existe família sem conflitos, ainda mais uma família que esteve tantos anos separada.
Walter deixou o seu país no início da guerra civil em Angola (1975-2002), onde estudou jornalismo e conheceu Esther, que por sua vez estudava Ciências Sociais; ambos de esquerda. Tempos depois de ter migrado para os EUA, a esposa e a filha (ainda bebé) tiveram de escapar de Angola e migraram para a Tanzânia até poderem reencontrar Walter. Na Tanzânia, o consolo e o acolhimento que Esther encontrou foi na religião evangélica. No meu ponto de vista, para a sua desgraça, pois a religião evangélica doutrina as pessoas a ponto de se tornarem fanáticas e cegas.
Num diálogo entre mãe e filha ficamos a saber que, depois do fim da guerra em Angola, Walter não regressou ao seu país de origem porque ele e Esther queriam dar um futuro melhor a Sílvia, que crescera sem o pai. O que não contavam é que a vida de imigrante custa caro, em todos os sentidos, deixa-se para trás todo o passado construído no país de origem para aprender novos hábitos e valores de uma nova cultura e integrar-se na sociedade local.
Vivendo em Nova Iorque, Esther não pode trabalhar fora porque aguarda a autorização legal. Passa os dias em casa sozinha, a ler a Bíblia e a rezar, iludida com a sua religião, encontrando dificuldade em adaptar-se à nova vida. Walter passa todo o tempo a trabalhar longas jornadas como taxista, sendo esta a única fonte de rendimento da família. Quando está em casa, faz um esforço brutal para suportar a devoção da esposa à religião evangélica, tentando reconstruir os laços afetivos que existiram entre eles no longínquo passado. Sílvia, por sua vez, sente a falta dos amigos que deixou em África; em casa é taciturna, mas rapidamente faz amizades na escola. Nunca responde nem desrespeita os pais — um hábito cultural angolano que permanece na sua personalidade — e até faz as orações que a mãe lhe pede. No lar, a família se comunica em inglês. Esta escolha da realizadora incomoda-me, afinal a língua materna de Esther, Sílvia e Walter não é o inglês.
Com o tempo, na convivência diária de Esther com Walter, ela acaba por descobrir que, na sua longa ausência, o marido tinha tido outro relacionamento, com Linda, uma mulher que vivia em sua casa até pouco tempo antes da chegada de Esther e Sílvia. O facto vai causar conflitos entre Esther e Walter. Ele, visivelmente, ainda sente a falta de Linda, mas esforça-se por reconstruir os laços familiares rompidos com Esther e com a filha 17 anos atrás, quando deixou a sua terra natal.
São muitos os casais e filhos que se separam temporariamente (ou definitivamente) por questões migratórias, as consequências geram problemas no seio familiar, alguns insolúveis. Outra consequência das leis anti-imigração é a dificuldade ou impossibilidade do reagrupamento familiar. Muitos homens deixam as suas moradas por razões diversas e, sozinhos, migram para trabalhar e sustentar a família que fica no país natal — família que nem sempre consegue reencontrar-se. Algo comum nos tempos atuais em Portugal e no mundo, pois as leis migratórias têm separado cada vez mais famílias. Há coisas que não basta colocar-se no lugar do outro, é preciso ser imigrante para saber o que isso significa.
A realizadora cria situações e diálogos criativos e simbólicos para aproximar e reconectar pai e filha, marido e esposa. Cito duas situações: na cena em que Walter leva Sílvia ao médico, na sala de espera do hospital, o pai descobre que a filha gosta de dançar e quer atuar profissionalmente como bailarina (ela pratica Kuduro, uma dança angolana). Na conversa, Walter revela à filha que fora um bom dançarino na juventude em seu país (dançava Kizomba) e diz que a dança é, para ele, a única forma de expressar livremente quem é. Sugere ainda a Sílvia que ela seja o que deseja e não abandone seus sonhos. Percebe-se no filme que a música e a dança são, para eles, expressão de identidade e liberdade.
No hospital, o espectador descobre que a enfermeira que atende Sílvia é Linda Walter (Nana Mensah, atriz ganesa norte-americana), a ex-companheira do pai, mas ela parece não se aperceber disso. Perante a filha, Walter demonstra que nada existe entre ele e Linda; todavia, em privado, agradece-lhe por cuidar de Sílvia. Linda chateia-se com Walter, que insiste em continuarem amigos. Ela ignora-o. Noutra cena, Walter e Sílvia dialogam sobre a falta que sentem de casa, de Angola. A conversa prossegue e o pai confessa à filha: “Os Estados Unidos é um país duro para pessoas negras viverem, principalmente se forem imigrantes”.
O elenco representa muito bem os papéis das personagens. Na seleção, a realizadora quis que os três atores principais fossem negros, que fisicamente parecessem da mesma família e que dominassem o sotaque angolano. Outra premissa foi que os atores que interpretam Walter e Sílvia soubessem dançar, para dar mais veracidade às personagens. De facto, as três atuações principais são muito verossímeis. Zainab Jah, que vive Esther, é uma consagrada atriz de teatro britânica, de origem africana (Serra Leoa). Jayme Lawson, que interpreta Sílvia, é uma estreante atriz norte-americana. Ntare Guma Mbaho Mwine, que interpreta Walter, é norte-americano de origem ugandesa (e também realizador de cinema experimental).
A interpretação e os movimentos de câmara envolvem o espectador no quotidiano de Walter, Esther e Sílvia. Os movimentos calmos e a encenação dão tempo para a família se integrar, permitindo-nos acompanhar as suas transformações, intensificadas ao longo da habilidosa montagem de Jeanne Applegate e Justin Chan. A realizadora opta por filmar em primeiros planos detalhes que expressam a personalidade e os conflitos de uma personagem em relação a outra. Também faz closes do figurino que conecta cada personagem com o seu modo de ser, como no caso das botas azuis que Sílvia usa. O filme é muito bem realizado.
Diferente de outras obras sobre imigração, Ekwa Msangi não aborda diretamente aspetos de política migratória ou das leis racistas nos EUA. A sua intenção foi despolitizar o estatuto do imigrante, dar nomes às pessoas, valorizá-las enquanto indivíduos, mostrar o seu quotidiano e revelar os problemas familiares e íntimos do ser humano. Numa entrevista a seguir ao final do filme, disponível na plataforma MUBI, a realizadora declarou que Farewell Amor é inspirado na história dos seus tios: nos anos 1990, ele migrou para os EUA para trabalhar, enquanto a sua tia e prima ficaram na Tanzânia. Em 2020, ainda aguardavam a documentação legal para o reagrupamento familiar. Esta é uma história recorrente nos dias de hoje, não apenas nos EUA, mas também na Europa e em outros países, cujas políticas migratórias têm rejeitado imigrantes, principalmente, pobres.
Msangi dirigiu o filme com muita coerência em relação a história que criou, uma narrativa que cativa e surpreende a cada cena. Farewell Amor tem 1h40 de duração, foi exibido e premiado em diferentes festivais de cinema do mundo e está disponível na MUBI.
UM FILME A NÃO PERDER!



















