Ateniense creditado como Pai da Comédia, Aristófanes sintetizou um sentimento que Yorgos Lanthimos, seu compatriota, traduz nas suas incursões pelas narrativas anglófilas: “A nossa pátria é onde nos sentimos bem.” A Favorita (2018) tornou-o um queridinho da ala sofisticada da indústria que gosta de se fazer passar por independente. Em 2023, chegou o Leão de Ouro, a rugir para o engenhoso Poor Things, o que fixou o seu nome, em definitivo, num panteão de criadores que os grandes festivais já não podem ignorar.
Em sintonia com o aforismo do autor de As Nuvens, Yorgos encontrou o seu posto. O que antes fazia com meios limitados e elencos da sua Grécia natal, nos tempos de Dogtooth (Prix Un Certain Regard, 2009), hoje repete… só que com vedetas de Hollywood — mas sempre as mais abertas ao risco e à invenção, sobretudo Emma Stone, a sua parceira mais fiel nas telas de humor cínico, por vezes misantrópico, que subverte os manuais de comportamento dos Estados Unidos — agora o seu alvo privilegiado. Bugonia, que San Sebastián acolhe na secção Perlak, após a sua passagem por Veneza, é sintomático do território simbólico que o cineasta escolheu para si. O maior sintoma é o esvaziamento pleno da empatia. Esse “pleno” é tão absoluto que chega a atropelar a própria obra.
Há uma década, quando A Lagosta lhe valeu o Prémio do Júri em Cannes, Yorgos mostrou que (algumas) das suas personagens ainda sabiam amar — embora fora dos módulos convencionais de afeto do próprio cinema anglo-saxónico que o acolheu como quartel-general. Bella Baxter, heroína oscarizada de Poor Things, também amava, à sua maneira, com ardor, fazendo do sexo o seu carnaval. Em média, porém, as figuras de que fala já não têm disposição para doar os seus afetos ao próximo. Nota-se isso na forma como Michelle, a executiva interpretada por Stone em Bugonia, se impõe na corporação que lidera, com ordens que sobrestimam a sua autoridade. O treino matinal de artes marciais não revela cuidado com o corpo, mas um mecanismo de defesa contra avanços indesejados. Michelle constrói-se como uma ilha, sem pontes possíveis. O conflito que deveria friccionar o novo filme do conterrâneo de Sófocles nasce do momento em que a sua zona de conforto é invadida. Para piorar, os invasores carecem de lucidez para distinguir um ato político de um crime.
Produzido com o apoio da Universal Pictures, Bugonia só se sustenta pela presença de Jesse Plemons. Outro parceiro de Yorgos, interpreta Teddy, um fracasso em forma de homem que, com a ajuda de um primo com claros problemas psiquiátricos, Don (Aidan Delbis), sequestra Michelle acreditando ter capturado a emissária de um povo alienígena conquistador. Ao longo de 120 monótonos minutos, Teddy trava com ela um debate retórico, tentando forçá-la a assumir a sua origem estelar. O objetivo é fazê-la deter a ofensiva do seu planeta contra a América.
Essa América é tão desesperançada quanto a de Civil War (2024), a joia geopolítica de Alex Garland, onde Plemons ofereceu uma das suas interpretações mais intensas. Ali havia desespero real, quase profético, face ao que hoje se vive nos EUA com a reemergência de Donald Trump. Já os Estados Unidos de Bugonia são uma caricatura: um espaço onde tudo falha, onde tudo é fiasco, onde toda a emoção é simulacro. Seria o palco perfeito para a herança de Aristófanes e para a comédia mordaz imperar. Em vez disso, vetorizado pela correção política que fez o cinema desaprender a rir, Yorgos aposta na brutalidade — e das mais cruéis — quando deveria oferecer ironia. Há lampejos ocasionais de nervoso, sustentados pelo talento notável de Plemons, mas que acabam soterrados numa montagem pesada… tão pesada quanto a moral de um artista cujo génio nem sempre corresponde à ribalta que alcançou.



















