Vencedor do prémio de Melhor Argumento no Festival de Cannes, Notre Salut marcou o regresso de Emmanuel Marre à Croisette depois de, em 2021, ter apresentado Rien à Foutre, codirigido com Julie Lecoustre, filme que acompanhava uma comissária de bordo low cost interpretada por Adèle Exarchopoulos.
Não podia ser mais diferente a história de Notre Salut, onde o cineasta mergulha na burocracia do regime de Vichy para construir um retrato inquietante da colaboração francesa durante a ocupação nazi, não através das grandes figuras históricas, mas do quotidiano cinzento dos funcionários administrativos que, lentamente, se tornaram peças essenciais da máquina antissemita. “O ponto de partida foi muito simples. Quando descobri a correspondência do meu bisavô, percebi uma coisa: nenhum regime fascista consegue manter-se apenas com uma arma apontada à cabeça de toda a gente. Tem de existir outra coisa que o sustente”, disse o cineasta ao C7nema durante o festival.
Inspirado na figura real do seu bisavô Henri Marre, cujo nome só uma vez é dito no filme, passando depois a ser descrito como Monsieur Henri, o realizador afasta-se do drama histórico convencional ou do biopic, criando uma imersão claustrofóbica – quase em tempo real – onde o horror nasce da banalidade das decisões tomadas em escritórios, corredores ministeriais e reuniões aparentemente burocráticas. “A ideia era reproduzir a sensação que tive quando entrei nos Arquivos Nacionais e encontrei uma pequena pasta sobre o meu bisavô”, explica Marre. “Abri-a e deparei-me com documentos completamente diferentes entre si: papéis, cores, materiais, fragmentos sem uma lógica evidente. O filme tenta fazer exatamente isso. Damos ao espectador os materiais, não fazemos um julgamento.”

Interpretado por Swann Arlaud, Henri Marre surge como um oportunista vaidoso, simultaneamente culto, manipulador e emocionalmente frágil. Arruinado financeiramente depois de desperdiçar o dinheiro da família em negócios falhados, ele vê na derrota francesa uma oportunidade para se reinventar dentro da nova ordem de Vichy. Deixa a mulher e os filhos para trás e instala-se no sul de França, aproximando-se gradualmente dos círculos do poder através de uma mistura de charme, oportunismo e fervor patriótico. Obcecado pelo marechal Pétain, distribui exemplares do seu manifesto político, Notre Salut, acreditando sinceramente que poderá participar na reconstrução moral do país.
“O manifesto existe mesmo. Pode ser comprado na Amazon”, explica-nos Marre. “Ele escreveu-o depois da derrota francesa. Acreditava profundamente em métodos de gestão e organização. A teoria dele era que a França tinha perdido porque o Estado não funcionava segundo métodos suficientemente eficazes de administração. Hoje chamamos a isso ‘management’, embora naquela época ainda não se usasse esse termo. Ele acreditava que patriotismo e eficiência estavam ligados. Para um país ser forte, precisava de uma gestão forte. E existe também uma dimensão ideológica muito importante no texto: a ideia de que o direito é algo demasiado abstrato e intelectual, enquanto a vitalidade física dos seres humanos deveria estar acima da lei.”
Questionado em Cannes pelo C7nema sobre o que o atraiu a este papel, Swann Arlaud afirma que, tal como o filme, também ele tenta compreender aquilo que aconteceu. “Hoje fala-se muito do regresso do fascismo e da repetição dos anos 30. Emmanuel Marre procura mostrar concretamente como um sistema autoritário se instala passo a passo: primeiro a vontade política, depois os ministérios, os decretos e as administrações, até a violência se tornar rotina burocrática. O realizador desmonta também o mito de uma França inteiramente resistente, lembrando que o regime de Vichy não se limitou a obedecer aos alemães — foram também franceses que procuraram judeus para os enviar para os campos. Notre Salut obriga assim o espectador a olhar para a história francesa de forma mais complexa.”
Admitindo que Henri não viveu aqueles acontecimentos pensando que estava “do lado errado” da História — até porque nós conhecemos o fim da história e ele não — Swann explica que o trabalho da equipa do filme passou por abordar cada situação isoladamente, ou seja, olhar para a relação dele com a família, o trabalho e os gestos quotidianos. “O ser humano não age de forma linear nem plenamente consciente. Muitas vezes age de maneira confusa e irracional. Não queríamos absolver a personagem nem condená-la. Tentámos manter-nos numa linha muito frágil.”
De notar que Notre Salut foi apenas um dos três filmes com produção francesa que abordam o governo de Vichy e o período da ocupação nazi em França. László Nemes exibiu em Cannes Moulin, enquanto Antonin Baudry levou ao festival La Bataille De Gaulle: L’âge de fer.
Estará França a reescrever a sua própria história através do Cinema? Swann Arlaud acredita que “talvez esteja” e admite que isso “sente-se no ar”: “Precisamos de interrogar o passado para compreender o presente. Porque, se mentimos sobre o passado, acabamos também por mentir sobre o presente”.

