Luiz Carlos Lacerda e o sobe e desce da poesia, e da picardia, no cinema brasileiro

(Fotos: Divulgação)

Uma conversa entre o C7nema e Luiz Carlos Lacerda

Encarado como mestre não apenas pelas gerações de estudantes em quem aplicou conceitos de realização, mas também por cineastas já tarimbados, que aprenderam com ele o valor da paixão na criação das imagens, Luiz Carlos Lacerda tem usado os dias da quarentena para escrever poemas, muitos deles dedicados ao exercício de observar as belezas do mundo. Ocupado com a finalização de uma série para a TV, no Canal Brasil, chamada “Rua do Sobe e Desce, Número Que Desaparece“, o diretor de “For All – O Trampolim da Vitória” (1997) e “Leila Diniz” (1987) gravita pela lírica construindo versos como o da poesia abaixo, enviada com exclusividade para o C7nema:

POEMA DA QUARENTENA (VI)

Romanceiro.

Navegante, navegante, leva -me pra navegar.

Disse-me uma amiga querida

Que o mar é das gaivotas

E de quem sabe navegar.

Leva-me a voar com elas

Para bem longe, no mar.

Aqui não quero ficar.

Navegante, navegante,

Que maré nos salvará?

Deixa teus peixes de lado,

Não pares de navegar.

Nenhuma ilha nos vale

Nem aqui, nem acolá.

As procelas e os sargaços

Servirão para enfeitar

O teu barco, navegante.

Até que no horizonte

Estrelas venham iluminar

O teu caminho, indicando

Onde deves ancorar.

Navegante, navegante,

Leva -me para o teu mar.

As estrofes acima serão incorporadas na antologia O Labirinto Febril”, hoje em preparação, resguardando no sagrado recanto da página impressa um lirismo talhado a partir de anos de combate contra o moralismo. Apelidado de Bigode e comparado a Ettore Scola pela sua abordagem irónica dos costumes e da mesquinhez, o cineasta, hoje com 74 anos, fala na entrevista a seguir sobre a sua relação com a linguagem da TV e com as artimanhas da poesia. Filho do produtor português João Tinoco de Freitas, ele faz ainda um balanço sobre a herança lusófona no seu olhar de realizador, talhado numa ponte com a literatura e com o exercício do documentário.

Depois de um par de longas metragens de ficção que passam pelo escritor Lucio Cardoso, você tem militado nos .docs e na TV, tendo rodado, há pouco, uma série para o Canal Brasil. De que maneira essa experiência na TV dialoga com a tua formação num tipo cinema combativo, que sempre viu o moralismo como inimigo?

Os meus primeiros filmes foram curtas documentais. No meu caso, um exercício de linguagem que se mesclava com o cinema ficcional. Todos dedicados a temas que, de certa forma, obedeciam a uma postura crítica da sociedade brasileira e de sua história. O primeiro deles falou sobre o escritor transgressor Lucio Cardoso, que remou contra a maré da temática social, em voga nos anos 1930, e inaugurou, com Octavio de Faria, Cornélio Pena e, mais tarde, Clarice Lispector, a corrente do romance psicológico. Fiz um .doc sobre Angelo Agostini, um republicano e antiescravagista que lutava por seus ideais na sua “Revista Ilustrada”. Falei sobre os primeiros sambistas que contam a perseguição que sofriam quando o gênero ainda era proibido. Falei sobre a trajetória do meu mestre Nelson Pereira dos Santos, na afirmação de um cinema independente dos tradicionais meios de produção e de enfoque. Até hoje, realizo filmes curtas e médias. Filmei um sobre o pintor Victor Arruda e o seu trabalho transgressor: é o único da América do Sul considerado pelo crítico italiano Olivo Bonito como sendo representante da Transvanguarda de Basquiat e outros. Filmei um .doc sobre o trabalho de Alair Gomes, precursor do nu masculino na fotografia brasileira. E também fiz um .doc sobre a prisão do grupo norte americano Living Theater, durante a ditadura no Brasil. E fiz a adaptação de contos do escritor outsider João do Rio, ambientados no início do século XX. Os meus docs/séries para a TV têm como tema a cultura popular do Brasil, essa que é realizada por artistas anónimos e não reconhecidos pelo mercado das Artes. Vivo à procura dessas joias, como um garimpeiro em busca do ouro. Uma delas é sobre os velhos sambistas ainda vivos, o “Enciclopédia do samba“, num certo sentido dando continuidade aos meus primeiros documentários nesse registro.

Que série é essa que você acaba de filmar e do que trata?

A minha mais recente realização, ainda inédita, é a série de ficção “Rua do Sobe e Desce, Número Que Desaparece”. É um projeto de seis capítulos que escrevi e dirigi para o Canal Brasil/Globosat, cujo tema é a amizade e a solidariedade entre vizinhos e as novas formas de relacionamento. Como podem coexistir mundos tão diferentes na harmonia ditada pela coragem de enxergar, no Outro, os seus limites e as suas potencialidades de aceitar mudanças. É uma trama baseada na ideia de que “qualquer maneira de amor vale a pena”, como diz a velha canção de Milton Nascimento.

A sua primeira longa-metragem vai comemorar 50 anos. Como foi o desafio de filmar “Mãos Vazias” no início dos anos 1970?

“Mãos Vazias”, a minha primeira longa-metragem, é uma adaptação livre do romance homônimo do Lucio Cardoso, escritor tema da minha primeira curta. Trata-se da história do rompimento de um casamento nos moldes burgueses, no mundo rural dos anos 1930, e feito por iniciativa da mulher – que ousa esse gesto libertário, liberta-se dos valores convencionais e sai, sem destino, ao sabor da aventura de viver. É bom lembrar que foi escrito em 1938 e filmado em 1970, quando, no Brasil, o movimento feminista apenas engatinhava. E a sua protagonista foi a atriz Leila Diniz, um símbolo de liberdade e de revolução comportamental. Aos 24 anos, o meu interesse era contar essa história, mas de uma forma que também transgredisse a linguagem cinematográfica vigente. O filme foi realizado quase totalmente com a lente 18mm (uma grande angular) e planos-sequência, mas fixos – contrariando o uso da câmara na mão, marca do Cinema Novo, movimento ao qual eu era ligado afetivamente por meio de Nelson Pereira dos Santos, de quem eu era assistente. A minha inspiração eram os filmes de Robert Bresson e o seu cinema discursivo e lento… como era a literatura de Lucio Cardoso e seu romance de introspecção.

O seu ofício de cineasta divide lugar com o ofício de poeta. Você tem livros de poemas publicados como “Os Sais das Lembranças” e “Reis de Paus”. O que a poesia representa como lugar de criação e experimentação?

O meu avô paterno, João Pinto Dias de Freitas, português, era poeta. O seu pai também era. Recebi do meu avô o primeiro livro de poesia, o “Só”, do simbolista António Nobre. Junto com isso, vieram palavras me incentivando a escrever. Eu fugia do colégio para o Real Gabinete Português de Leitura, no Centro do Rio de Janeiro, onde li Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Florbela Espanca, Cesário Verde, além dos ficcionistas como Eça de Queirós. O meu professor, o poeta Cláudio Murilo Leal, apresentou-me aos modernistas brasileiros e publicou os meus primeiros poemas na antologia Novos Poetas, aos 14 anos de idade. O poeta Walmir Ayala publicou-me nas antologias “A Novíssima Poesia Brasileira” (da Editora Cadernos Brasileiros), em “Poetas Novos do Brasil” (Editora MEC), “Poemas de Amor” (Ed. GRD) e outras. Passei a colaborar com os suplementos literários (de Minas Gerais; em “A tarde”, da Bahia, no “Jornal do Brasil”) e revistas. Quando comecei a trabalhar no cinema, com 19 anos, como assistente de direção, continuava a escrever, mas a poesia ficou em segundo plano, sob o ponto de vista de meio de expressão. Mas, inevitavelmente, foi incorporada aos filmes que comecei a realizar.

Como se deu essa incorporação?

A poesia aparece seja na criação de imagens poéticas, seja na própria temática. Fiz filmes sobre a poesia de Cecília Meireles, de Walmir Ayala, de Mário Faustino. Nas minhas longas e séries, sempre incluo poemas. Na recentíssima telessérie “Rua do Sobe e Desce, Número Que Desaparece”, há obras de Antonio Botto, Manuel Bandeira, Walmir Ayala, Lucio Cardoso. A minha longa-metragem ainda inédita, “O Que Seria Deste Mundo Sem Paixão?”, fala sobre o encontro do escritor Lucio Cardoso com o poeta Murilo Mendes e os seus personagens literários. O texto de Pasolini sobre “Cinema de Poesia” definiu uma linha de expressão cinematográfica, presente em toda a minha filmografia. A poesia segue presente em meu trabalho. Somente agora, nesta década, publiquei livros exclusivamente da minha autoria: “Os Sais da Lembrança” (Ed. Giostri, 2010), “Reis de Paus” (Ed. Mariposa Cartonera, 2017) e preparo “O Labirinto Febril, os Poemas da Quarentena”.

O seu pai, o produtor João Tinoco de Freitas, é de origem portuguesa. O que fica de marca da cultura de Portugal no teu olhar de realizador?

A minha família paterna é do Porto. O meu avô, João Pinto Dias de Freitas, veio para o Brasil com a mulher e os filhos, no inicio do século XX, em 1909, representar o vinho do primo Adriano Ramos Pinto e a Cerâmica do Carvalhinho (1840/1974), também da família. Além do incentivo a conhecer a literatura, ouvia-se muita música portuguesa nas casas de nossa família e eu ganhava livros de pintores como José Malhoa e outros. Nos meus filmes, já inclui alguns fados nas trilhas musicais. Manoel de Oliveira está, indiscutivelmente, na minha lista de preferências cinematográficas. Aprecio os filmes de João Botelho (especialmente O Livro do Desassossego), João Pedro Rodrigues, João Canijo, Rita Azevedo Gomes, Miguel Gomes, do jovem João Salaviza e do meu ex-aluno na Escuela Internacional de Cine em Cuba, José Barahona. Sou aficionado do Grupo teatral A Barraca. Sempre que vou a Lisboa, ou eles vêm ao Brasil para se apresentarem, assisto aos seus espetáculos – onde tenho uma amiga, a grande dama do Teatro português, Maria do Céu Guerra. Entre os meus escritores preferidos, além de Eça de Queirós, está o genial José Saramago. Essa minha relação com Portugal passa também pela amizade com artistas de várias áreas. E tenho projetos para realizar por aí. Estou a tratar da minha tardia cidadania.

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